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Lembranças do mar cinzento (XXIII) 

O medo e a dor conhecidos na Oban, Jurema não esquecerá jamais. Claro que pode olhar tudo hoje com relativa serenidade. Mas sente calafrios quando ouve o telefone tocar, uma chave acionar uma fechadura ou um dentista preparar-se para uma obturação. O medo, presente. Dor que se anuncia, verdadeira ou imaginária, pouco importa. Medo e dor incrustados na alma. Cicatrizes do terror. 
Da Oban, foram para o Deops, em São Paulo. Sarno ainda foi torturado no Deops, embora nada parecido com o que ocorrera anteriormente. Junto com 50 outros presos, Sarno participou da vigília e do protesto contra a retirada de Eduardo Collen Leite – Bacuri – das celas do Deops para ser morto mais tarde, um dos assassinatos mais bárbaros cometidos pelo regime militar. A morte de Bacuri foi, para todos os presos, um outro tipo cruel de tortura. Sabia-se que ele seria morto, e não havia o que fazer. Como se conhece muito pouco ainda sobre as atrocidades da ditadura, é o caso de rapidamente contar essa macabra crônica de uma morte anunciada. Para que nunca nos esqueçamos do que foi o terror da ditadura. Crônica que Sarno viveu de perto.
Nascido em Minas Gerais, em 28 de agosto de 1945, Bacuri revelou-se um militante disciplinado e arrojado, tendo militado, em 1968, na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), fundado a Rede Democrática (Rede) em abril de 1969 e posteriormente ingressado na Ação Libertadora Nacional (ALN). Talvez tenha sido essa história, marcada pelo comando de várias ações da esquerda armada, que o tornara tão odiado pelos militares. Foi preso no dia 21 de agosto de 1970, no Rio de Janeiro, pelo delegado-terrorista Sérgio Fleury e sua equipe. E aqui começou a sua via crucis, ponteada por suplícios inimagináveis. Passou pelo Cenimar e pelo DOI-Codi, no Rio de Janeiro. No DOI-Codi, foi visto pela ex-presa política Cecília Coimbra, hoje dirigente do grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro. 
Do Cenimar do Rio de Janeiro, Bacuri foi transferido para o 41º Distrito Policial de São Paulo, cujo delegado titular era o próprio Fleury, que se notabilizou, como se sabe, não só pela tortura e assassinatos de prisioneiros políticos, como por chefiar o Esquadrão da Morte paulista. Ainda voltaria, sempre sob torturas, para o Cenimar/Rio e depois para a Oban. Em outubro, foi removido para o Deops de São Paulo, ficando na cela 1 do chamado “fundão” – uma área totalmente isolada das outras celas (sobre o assunto, o leitor pode encontrar mais dados no “Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964”, livro editado pelos governos de Pernambuco (1995) e de São Paulo (1996), e, também, em “Dos filhos deste solo”, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, editado pela Fundação Perseu Abramo e Boitempo Editorial).
No dia 24 de outubro de 1970, Bacuri foi informado de que os jornais daquele dia estavam noticiando a sua fuga, ao lado da morte de Joaquim Câmara Ferreira, velho dirigente comunista assassinado também por Fleury. Todos os presos do Deops tomaram conhecimento disso. O assassinato dele estava anunciado. O anúncio da fuga era o sinal de que seria executado. Bacuri comentou com Vinícius Caldeira Brandt que estava preso na cela 4 do “fundão”:
– A única esperança que me resta é a que a decretação de minha morte chegue ao novo arcebispo de São Paulo, D. Evaristo Arns. Ele luta de fato pelos direitos humanos.
Os jornais traziam a notícia da fuga de Bacuri, e sadicamente foram mostrados a ele pelos próprios policiais. Era um sábado. Todos os presos entraram em vigília permanente. Na segunda, começaram as providências para a transferência de Bacuri. Sem poder andar devido às torturas, foi tirado da cela 1 do fundão para a X-1 (cela localizada em frente à sala dos carcereiros). Vinícius Caldeira Brandt revelou que Bacuri tinha plena consciência da proximidade da morte, mas mantinha “uma postura digna e tranqüila”. À 1 hora da madrugada do dia 27 de outubro de 1970, policiais o retiraram do Deops, sob os protestos indignados e barulhentos dos demais prisioneiros políticos, Sarno entre eles. 
Depois de ser retirado do Deops, Bacuri nunca mais foi visto por nenhum preso político. Só por seus torturadores. Nas audiências da Auditoria Militar em São Paulo, vários presos denunciaram o sumiço de Bacuri, sem que o juiz Nelson Guimarães tomasse qualquer providência. Um policial, Carlinhos Metralha, do Esquadrão da Morte, disse que Bacuri estava no sítio particular de Fleury, onde também foi morto Joaquim Câmara Ferreira.
Bacuri foi executado no dia 7 de dezembro de 1970. Seu corpo foi encontrado em São Sebastião, litoral norte do Estado de São Paulo. No mesmo dia, o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, havia sido seqüestrado por revolucionários brasileiros. E isso apressou a execução de Bacuri, pois certamente ele estaria na lista de prisioneiros que deveriam ser libertados em troca do diplomata. Seria impossível apresentá-lo, pois estava um trapo humano, como pôde constatar sua família, a quem o corpo foi entregue: hematomas, escoriações, cortes profundos, queimaduras por toda parte, dentes arrancados, orelhas decepadas, olhos vazados. 
Denise Crispim, companheira de Bacuri, fora solta antes de ele morrer devido ao fato de estar grávida. No dia 10 de outubro de 1970, nasceu Eduarda, na Itália. Bacuri não conheceu a filha.
Sarno não se esquece do dia 8 de dezembro de 1970. Foi o dia em que soube da morte de Bacuri. E foi exatamente nessa data que a sua família conseguiu visitá-lo em São Paulo. Nas lembranças desse 8 de dezembro, convivem a tristeza e uma quase-alegria. O sentimento profundo, quase indecifrável, da perda brutal de um companheiro. O alívio, quase alegria de poder reencontrar-se com seus pais. Encontrar familiares pela primeira vez na prisão era um passaporte para a vida. Enquanto o preso estivesse clandestino, podia ser morto. Depois, era quase impossível que isso viesse a ocorrer. Do Deops, Sarno e Jurema são trazidos para a Bahia. Em junho de 1971, voltam para São Paulo, por conta do processo que respondiam lá. Somente em abril de 1972, desembarcam novamente na Bahia para cumprir pena – Sarno, na Penitenciária Lemos de Brito: Jurema, na Detenção. 

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
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Capítulo 30
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Capítulo 29
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Capítulo 28
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Capítulo 26
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Capítulo 25
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Capítulo 24
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Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
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Capítulo 19
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Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
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Capítulo 15
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Capítulo 14
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Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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