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Lembranças
do mar cinzento (XXV)
Emiliano José
O leitor lembra-se bem, se está acompanhando: no capítulo anterior eu contava
da abertura da cela no 20º dia. Os 19 do Forte do Barbalho tiveram direito a
banho de sol depois de 20 dias espremidos num cubículo fétido. Lembra-se também
de um Othon Jambeiro embevecido com os fragmentos de um artigo de Carlos Heitor
Cony desancando a ditadura. Havia alguém, do lado de fora, que não se dobrava
à ditadura. Mais: que defendia os presos políticos. E eu começava a contar que
depois daquele 20º dia, quando saíram da cela para tomar banho pela primeira
vez, algumas coisas boas começaram a acontecer.
O deputado Sebastião Nery, por exemplo, começava a receber visitas de suas mulheres.
Sim, porque ele não era homem de apenas uma, mas de duas mulheres. Que deviam
vir em horários diferentes em nome da, digamos, boa diplomacia. Um político
sabe como administrar conflitos e, mais ainda, evitá-los, mesmo em condições
desfavoráveis. Não se pretende aqui nenhuma intromissão na vida do então parlamentar,
que isso é da conta dele. Mas é verdade que os presos suspiravam: ah, as mulheres
do Nery...
Mas o leitor que não se adiante e nem pense mal. Os suspiros não eram pelas
mulheres propriamente, rigorosamente respeitadas por todos os seus companheiros
de prisão. Mas porque, com elas, chegavam jornais. Esta era a razão de tanta
ansiedade pelas visitas femininas do Nery, que pela condição de deputado podia
recebê-las.
Os 19 do Forte - Nery, como já explicamos, estava em outra cela, sozinho, como
solitário ficava também Mário Lima; eram 21 ao todo, portanto - disputavam avidamente
os exemplares de O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Estado de São
Paulo. Não é que estivessem permitidos. Mas uma conversinha aqui, outra ali,
e os soldados faziam vista grossa para a entrada dos jornais. As mulheres do
Nery, sobraçando jornais, eram a felicidade de todos os presos.
A vida no Quartel do Barbalho, no entanto, continuava muito dura. Banho de sol
era realizado sob a severa vigilância dos soldados. Os sargentos, particularmente,
eram cruéis, perversos, tinham um sentimento fascista. Jambeiro lembra-se de
um deles, que antes que o café fosse servido fez questão de cuspir dentro da
vasilha.
Os familiares tinham contato com advogados, mas os presos, não. Souberam que
havia um movimento nacional pela libertação dos prisioneiros políticos, a exigência
de que os prazos legais para detenção fossem cumpridos, mas não havia nenhum
sinal de que isso pudesse acontecer. Ao contrário, a mobilização fez com que
transferissem Mário Lima para Fernando de Noronha, e Nery para um local que
até hoje Jambeiro desconhece. Os dois sumiram do Barbalho repentinamente.
O restante dos presos, logo depois da transferência de Mário Lima e Sebastião
Nery, foi transferido para o Quartel do 19º Batalhão de Caçadores, no Cabula.
Jambeiro, ao chegar, ficou preso no alojamento dos estudantes. Encontrou, entre
tantos outros, Amílcar Baiardi, Sérgio Gaudenzi e Fernando Schmidt. Depois de
aproximadamente 50 dias de prisão, os estudantes foram soltos, e Jambeiro permaneceu
preso. Foi transferido para o alojamento de sargentos e depois para o dos oficiais,
onde se encontrou com Everardo Públio de Castro e seu filho Nudd David de Castro,
Ronaldo Duarte, Marcos Gorender, entre outros. Recebeu, então, pela primeira
vez, a visita de um advogado, José Borba Pedreira Lapa, que será meu advogado
entre 1970 e 1974 e que se tornará um amigo caríssimo.
Prisão é sempre um momento de balanço. Jambeiro podia concluir que a vida até
ali tinha sido bastante agitada e rica. Aos 22 anos, nascido a 30/5/1942 em
Pindobaçu, então um distrito de Campo Formoso próximo a Bonfim, lembrava-se
ter conhecido a política em casa, quando o distrito tornou-se cidade e o pai,
Martinho Barbosa da Silva, primeiro prefeito, em 1950. Começou sua militância
política em 1958, no Colégio Dois de Julho, como diretor cultural do grêmio,
cujo presidente era Saul Quadros.
Teve uma outra curiosa militância no Centro Cultural Visconde de Cairu, cujos
inspiradores eram integralistas, como os irmãos Álvaro Ferreira e Gilberto Ferreira.
Neste caso, lembra-se de um acontecimento curioso. Em 1959, o irmão de Jambeiro,
Osmar Jambeiro, foi eleito diretor do centro. A Revolução Cubana era a discussão
do momento. A diretoria solicitou a Osmar que preparasse um trabalho sobre o
acontecimento para apresentar a convidados e a toda a diretoria. No dia marcado,
quando Osmar acabou de falar, o silêncio era sepulcral, e a decepção era evidente
no rosto da platéia. Os integralistas esperavam um libelo acusatório, e Osmar
produziu uma peça de exaltação a Fidel Castro, Che Guevara e seus companheiros.
Em 1960, Othon Jambeiro foi para o Colégio Severino Vieira terminar o ginásio.
E fizera isso na expectativa de ir para o Colégio Central, que garantia matrícula
a quem concluísse o ginásio no Severino. Em 1961, já estava no Central participando
de movimentos reivindicatórios. Em 1962 entra para o Partido Comunista Brasileiro
(PCB) junto com Fernando Batinga e Aloísio Santos.
Chegado ao PCB, descoberto o seu talento para a escrita, foi destacado pelo
partido para trabalhar na Folha da Bahia, semanário dirigido por Ariovaldo Matos,
hegemonizado pelo PCB. Na Folha da Bahia estavam, entre outros, José Gorender,
Florisvaldo Mattos, Zezito Contreiras. Era um jornal de esquerda, de caráter
democrático. Não tinha a natureza de um jornal partidário em sentido estrito.
Não era a proposta, e Ariovaldo Matos era muito vigilante quanto a isto, quanto
à necessidade da pluralidade. O registro de que o jornal vendia em torno de
cinco mil exemplares toda semana, naquela época, dá uma dimensão do sucesso
editorial. Circulou por mais de dois anos.
Às vezes, Jambeiro confundia suas funções, exatamente porque, além de jornalista
da Folha da Bahia, era militante do PCB. Aliás, estava na Folha da Bahia por
determinação do partido, como já se disse. No comício de encerramento da campanha
de Murilo Cavalcanti para prefeito de Alagoinhas, em 1962, Jambeiro falou como
representante da juventude socialista da Bahia, e ele, ali, estava como simples
repórter. Muito cedo, foi recrutado para as tarefas do aparelho partidário,
tirado do que era conhecido como frente de massas. Lembra-se da história de
João Dólar, melhor de João Dórea....
Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre
outros livros, de "Marighella, o inimigo número um da ditadura militar".
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