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Lembranças do mar cinzento (XXVI) 
Emiliano José


João Dória tornou-se João Dólar graças às artes e manhas de Hélio Duque, então presidente da Associação Baiana dos Estudantes Secundaristas (ABES). Othon Jambeiro lembra-se disso, pois participou ativamente da campanha para a eleição de Hélio Duque para a ABES em 1962. Foi num debate na ABES, aceito por Dória, que o então candidato a deputado (depois eleito) ouviu o apelido que nunca mais o largou. A idéia, Jambeiro faz questão de ressaltar, foi de Duque. 
Dória, baiano, havia migrado para o Sul. Transformou-se num festejado publicitário e decidiu ser deputado pela sua terra, onde desembarcou com uma campanha bem feita, planejada e executada por uma agência publicitária. Precursor, talvez, do marketing político na Bahia. Bastou isso para que desse a impressão de que tinha muito dinheiro e para que surgissem os boatos de que era ligado ao imperialismo. Uma campanha bem feita gerou uma alcunha provavelmente injusta. No debate, Dória se irritou muito com o apelido, que, no entanto, não causou estragos suficientes para impedir a sua eleição. Exerceu o mandato até 1964, quando foi cassado pelo golpe militar. 
As lembranças do período democrático de João Goulart misturam-se com as da emergência da ditadura. Na Bahia, na Assembléia Legislativa, logo que houve o golpe, os deputados Wilson Lins, Francisco Benjamin, José Carlos Facó, Moitinho Dourado, Antônio Albuquerque, Áureo Filho e Joel Muniz assinam moção expressando solidariedade "às forças democráticas civis e militares que, obedientes aos governadores Magalhães Pinto, Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, Ney Braga, Mauro Borges, Ildo Meneghetti e aos militares Amaury Kruel, Mourão Filho, Castello Branco, Justino Alves, entre outros, estão lutando para restaurar no Brasil a legalidade democrática, vítima de traição de um governo que se cumpliciava com os piores inimigos da liberdade, os comunistas". 
Na mesma sessão, o deputado Ênio Mendes lidera moção de solidariedade irrestrita ao presidente João Goulart, na defesa da legalidade constitucional. Mendes, juntamente com Diógenes Alves, Afrânio Lira, Jarbas Santana, Paulo da Mata e Sebastião Nery, além do suplente Aristeu Nogueira, terão seus mandatos de deputado estadual cassados, de acordo com a Resolução 513, de 28 de abril de 1964. A Assembléia Legislativa recebeu a relação do comando da 6ª Região Militar, e o presidente Orlando Spínola cumpriu a tarefa diligentemente, sendo, na seqüência, reeleito para mais um mandato. 
O comandante da 6ª Região Militar, general Mendes Pereira, ordena a prisão do prefeito Virgildásio Sena, assim como a do prefeito de Vitória da Conquista, Pedral Sampaio, os dois destituídos arbitrariamente do cargo. É preso também o professor Milton Santos, prisão noticiada muitos dias depois de acontecida. É declarada a suspensão dos direitos políticos de 98 cidadãos - a primeira lista da ditadura -, dentre os quais estavam os baianos Francisco Mangabeira, Waldir Pires e Hélio Ramos. E cassados os mandatos de 48 parlamentares, entre eles os baianos Fernando Santana e Mário Lima, além de João Dória. 
O ano do golpe foi 1964. Mas foi também o ano de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, da inauguração do Teatro Vila Velha, cujo primeiro espetáculo ("Nós, por exemplo") marcou o início da trajetória vitoriosa de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Maria Bethânia, entre tantos outros. 
Mas foi ano de algumas outras tristezas, além do golpe. Como a morte de José Gomes, muito mais conhecido como Cuíca de Santo Amaro, poeta-repórter, trovador do Mercado Modelo, uma espécie de rei da literatura de cordel. Ou a do incêndio da feira de Água de Meninos, até hoje pouco esclarecido. Fala-se que não havia mais interesse da permanência da feira na base da Montanha, onde se localizava, na Cidade Baixa. Rapidamente, começou a se falar na sua transferência para a enseada de São Joaquim, na Avenida Frederico Pontes, para onde ela efetivamente foi. Se os leitores quiserem mais detalhes sobre o ano de 1964, não custa dar uma olhada na ótima obra editada pela Assembléia Legislativa da Bahia, coordenada por Fábio Paes e Maíta Andrade, denominada "Bahia de Todos os Fatos: Cenas da Vida Republicana, 1889-1991". 
Após essa breve digressão, voltamos a Othon Jambeiro, ainda preso do 19º Batalhão de Caçadores, no Cabula. Já dissemos que, no 50º dia de prisão, os estudantes foram soltos, e ele e mais alguns outros não. E que o advogado José Borba Pedreira Lapa os visitara então. Este informou aos que haviam ficado presos que ele daria entrada num "habeas corpus" no Superior Tribunal Militar (STM). 
E o fez, com data de 6 de agosto de 1964, pedindo a libertação de Othon Jambeiro e mais Camilo de Jesus Lima, Carlos Augusto Contreiras de Almeida, Fernando Alcoforado, Milton da Costa Oliveira, Milton de Carvalho Silva, Nudd David de Castro, Rubem Dias do Nascimento, Sebastião da Silveira Carvalho e Wladimir Pomar. 
Pedreira Lapa denunciava, no pedido de "habeas corpus", que seus clientes se encontravam presos "como animais em curral e aos rebanhos em celas comuns, desprovidas das condições mínimas de higiene e salubridade no Quartel do 19º BC, no já tristemente célebre presídio do 'Cascão', em Narandiba, sem culpa formada e já esgotados todos os prazos legais toleráveis". Exatos 20 dias depois, o STM, por unanimidade, concedeu a ordem de "habeas corpus" em favor dos nove presos.
Ditadura, no entanto, é ditadura. É arbítrio. Não se conforma com a lei, mesmo que a determinação legal venha das instituições que lhe dão guarida, como o STM. O que se esperava era que imediatamente os nove presos fossem soltos. À noite, receberam a ordem de arrumar os pertences. E pouco depois, chegava o tenente Etiene Falcão. Os prisioneiros já tinham ouvido o boato de que, se o "habeas corpus" fosse concedido, seriam seqüestrados. Sob o comando de Etiene, foram levados para o Quartel de Amaralina. O seqüestro se confirmara. Os militares não queriam obedecer à determinação do STM, e não podiam deixar os presos no 19º BC, pois já era pública e notória a presença deles ali. Quando chegaram ao Quartel de Amaralina, foram colocados...

Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970 e 1974 e autor, entre outros livros, de "Marighella, o inimigo número um da ditadura militar".

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
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Capítulo 30
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Capítulo 29
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Capítulo 28
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Capítulo 24
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Capítulo 22
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Capítulo 21
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Capítulo 20
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Capítulo 19
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Capítulo 12
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Capítulo 11
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Capítulo 10
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Capítulo 9
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Capítulo 8
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Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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