Lembranças do
mar cinzento (XXVII)
Emiliano José
No último capítulo, para que o leitor não se perca, lembro que contávamos do seqüestro
de que foram vítimas os presos que estavam no 19º BC, no Cabula. Seqüestrados
e levados para o Quartel de Amaralina para que não fossem soltos. É que haviam
sido beneficiados com um "habeas corpus" pelo Superior Tribunal Militar (STM),
pedido pelo advogado José Borba Pedreira Lapa. Os favorecidos pelo "habeas corpus"
eram Othon Jambeiro, Camilo de Jesus Lima, Carlos Augusto Contreiras de Almeida,
Fernando Alcoforado, Milton da Costa Oliveira, Milton de Carvalho Silva, Nudd
David de Castro, Rubem Dias do Nascimento, Sebastião da Silveira Carvalho e Wladimir
Pomar. Beneficiados de direito, mas não de fato, à exceção de Milton de Carvalho
Silva, como se explicará à frente.
A cela de Amaralina tinha beliches e uma latrina. Quando o dia amanheceu, 29 de
agosto de 1964, souberam: estavam incomunicáveis. O seqüestro tinha acontecido
no dia 28 de agosto, um dia depois da chegada da ordem de soltura. Eram os "duros"
da ditadura em ação. Não admitiam sequer a intromissão de um tribunal militar.
A decisão deveria ser dos quartéis, não de tribunais. Por isso, o seqüestro e
a incomunicabilidade. Acontece que alguns dos presos que haviam permanecido no
19º BC haviam anotado as placas dos carros da Petrobras e feito chegar os números
à imprensa e aos advogados, com a informação do seqüestro.
Logo que recebeu a informação, José Borba Pedreira Lapa entrou com uma petição
destinada a fazer cumprir o "habeas corpus" 27.020, dirigida ao STM, denunciando
que os presos beneficiados haviam sido retirados do 19º BC para "lugar ignorado",
conduzidos "nas viaturas EB 2112707 (jipe) e COPEB 0-16 (Petrobrás), como se comprova
nos avisos deixados por Fernando Gonçalves Alcoforado e Sebastião da Silveira
Carvalho, corroborados com a informação de seus familiares (mãe, esposas, irmã)
prestada por escrito ao advogado subassinado e certidão da Auditoria Militar da
6ª Região Militar".
Das ordens de soltura, informava Pedreira Lapa na petição, apenas uma havia sido
cumprida: a relativa a Milton de Carvalho Silva "pela só circunstância evidente
de encontrar-se ele gravemente enfermo, no Hospital Militar de Salvador, nas condições
descritas e documentadas na petição do habeas corpus". Lapa recorda que o que
dissera no "habeas corpus" com relação ao prisioneiro: "possuído de neurose de
reação, distonia neuro vegetativa, síndrome do aparelho respiratório de etiologia
ainda desconhecida, emissão de sangue, caquético, reduzido a menos de 50 quilos,
necessitando de tratamento especializado". Por tudo isso, os militares resolveram
soltá-lo.
Lapa reclama, na petição, a soltura imediata dos presos em nome "da dignidade
da função judicante, tão elevada e tão nobre, e até, como se vê, dos próprios
desígnios diretores da revolução vitoriosa, cujo abastardamento a transformaria
em inexpressiva e intolerável quartelada". Acaso isso não fosse feito, diz Lapa,
só restaria "o apelo extremo à Organização das Nações Unidas (ONU), recurso este
que, entretanto, se concretizado, enodoará toda uma geração cristalizada na fé
democrática, enraizada sob o pálio e a égide dos princípios cristãos e dos impostergáveis
direitos naturais da pessoa humana, onde sobrepaira o da liberdade individual,
no seu sentido mais amplo". E data: 3 de setembro de 1964.
A rotina era dura para os prisioneiros. Só de vez em quando tinham direito a um
banho de sol sob a mira das metralhadoras. As famílias não sabiam onde eles estavam.
Procuravam-nos por todos os cantos, e nenhuma informação. Os soldados, proibidos
de trocar palavra com os presos. Era uma estranha, insólita situação: estavam
sendo escondidos do próprio governo.
Em qualquer lugar do mundo, no entanto, sempre há brechas. Sempre há a intromissão
do elemento humano, que não é tão previsível como às vezes se pretende. Othon
Jambeiro lembra-se de um fato simples mas decisivo. Com todas as restrições, os
presos conseguiram estabelecer algum tipo de conversação, nem que esporádica,
com um cabo chamado Aleluia, que chegou a conseguir até um rádio de pilha para
os prisioneiros, clandestinamente. Perto do dia 20 de setembro de 1964, Jambeiro
puxou conversa com o cabo, disse-lhe que sua mulher, Marúsia, fazia aniversário
no dia 24 daquele mesmo mês, e teve a ousadia de pedir-lhe que desse um telefonema
para ela. Não precisava dizer onde estava, mas que lhe desse parabéns, que dissesse
que estava bem. Soube depois: Marúsia recebeu um telefonema telegráfico:
- Quem fala?
- Marúsia
- Othon manda dizer que está bem. E lhe dá parabéns pelo seu aniversário.
E desligou. O telefonema pelo menos tranqüilizava os familiares. Os prisioneiros,
no entanto, estavam inquietos. Chegaram a preparar um plano de fuga. Passado o
tempo, Jambeiro diz ter certeza de que, se tentassem colocá-lo em prática, terminaria
em tragédia. Avançaram nos detalhes, fizeram simulações, mapas, desenhos, tudo
baseados em suposições sobre a estrutura física do quartel, que eles não conheciam.
Por sorte, receberam a notícia de que o general Ernesto Geisel faria uma visita
àquela unidade militar para apurar as denúncias de maus-tratos aos presos. E desistiram
da fuga. Geisel era, então, o chefe da Casa Militar do general Castelo Branco,
militar que ocupava a Presidência da República após o golpe. A decisão dessa visita
tinha sido tomada por pressão do general Taurino de Resende, chefe da Comissão
Geral de Inquéritos, que dizia não admitir que prisioneiros fossem maltratados.
Resende havia também reclamado a Castelo Branco que o regime não podia continuar
processando subversivos enquanto acobertava corruptos.
Jambeiro não se recorda exatamente como souberam da visita de Geisel. Talvez o
cabo Aleluia tenha deixado escapar a informação. Nas prisões, as informações correm
rapidamente, ao contrário do que se imagina. Começaram a discutir, então, como
receber Geisel. Jambeiro propôs fazer um cartaz, com uma frase forte, que denunciasse
a situação em que se encontravam, que causasse impacto. O próprio Jambeiro lembrou
de uma frase de Dante Alighieri, da Divina Comédia...
Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros, de "Marighella, o inimigo número um da ditadura militar".
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