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Lembranças do mar cinzento (XXVIII) 
Emiliano José

No capítulo anterior, falávamos do seqüestro dos presos do 19º Batalhão de Caçadores, transferidos para o Quartel de Amaralina, depois que o Superior Tribunal Militar (STM) concedera um "habeas corpus" que determinava a soltura de todos. O advogado José Borba Pedreira Lapa fizera uma petição denunciando o arbítrio e exigindo o cumprimento da decisão. Um plano de fuga havia sido desenvolvido pelos presos, abortado apenas pelo anúncio da visita do general Ernesto Geisel ao quartel para verificar os maus-tratos noticiados pela imprensa. 
Quem viveu as diversas conjunturas do período militar, sabe que a ditadura, naquele início, oscilava entre a violência e o cumprimento dos dispositivos legais. Ainda não era a época do AI-5, quando então os militares transformaram-se nos únicos intérpretes da lei e quando o terror, a tortura e o assassinato de adversários do regime tornaram-se uma macabra rotina. Naquele momento, não era de bom tom o arbítrio. Era preciso dar a impressão alguma legalidade. 
É nesse contexto que se pode entender a visita de Geisel aos presídios brasileiros, por pressão do general Taurino de Resende, chefe da Comissão Geral de Inquéritos. Intrigante, para quem não conhece a dinâmica de uma prisão, é como os presos souberam da visita de Geisel, já que estavam incomunicáveis. Nudd David de Castro, um dos presos, hoje participando da administração Guilherme Menezes (PT), em Vitória da Conquista, conta como ocorreu. 
Um cabo - ele não sabe se foi Aleluia, sobre o qual falamos anteriormente - aproximou-se da cela um dia, e quase sussurrando disse:
- Eu sei que vocês tão precisando de notícias. Ganhei esse rádio, e trouxe procês. Mas, bico, porque senão sobe pras cabeceiras, graduado sabe, e se graduado sabe vamos em cana. 
Castro repete as palavras, e diz que à época pensou como um sujeito que não conhecesse a língua portuguesa e os diversos significados das palavras conseguiria entender o que o cabo estava dizendo. Ouvindo a Rádio Mayrink Veiga conseguiram saber a data e o horário da chegada e da visita de Geisel ao quartel. 
Os presos prepararam-se para a visita. Geisel não deveria sair do Quartel de Amaralina sem conhecer o que haviam passado desde o início do golpe militar. Não só as precárias condições de prisão, como também o seqüestro, que significava, de alguma maneira, um confronto da chamada linha dura com o núcleo central do regime militar. 
Tinham de encontrar um modo de chamar a atenção do ilustre visitante. Coisa forte. Alguma espetacularização, como se diz contemporaneamente. Othon Jambeiro sugeriu então que se produzisse um cartaz com a frase de Dante Alighieri à porta do inferno, da Divina Comédia, e todos aceitaram. Papelão à mão, conseguido lá se sabe como, ele mesmo escreveu-a, em letras garrafais: LASCIATE OGNI SPERANZA VOI CHE ENTRATE.
Algo como "deixem fora toda esperança os que aqui entrarem", numa tradução livre e precária, e para a qual se pede desculpas. O cartaz ficava no fundo da cela, defronte à grade. Era a maneira de expressar a revolta contra aquela situação: seqüestrados e incomunicáveis, eles que há poucos meses viviam sob um regime democrático de plenas liberdades democráticas. A cela não era grande, 2,5 metros por 2, e o cartaz teria fácil visibilidade. Tudo isso ocorria no segundo semestre de 1964. Geisel chegou acompanhado do comandante da 6ª Região Militar, general Mendes Pereira e de vários outros oficiais. A primeira coisa que viu foi o cartaz, e perguntou, severo:
- Quem colocou isso aí?
- Eu - respondeu Jambeiro. 
- Por quê?
E o próprio Jambeiro detalhou a situação em que viviam para um atento Geisel. 
Depois de ouvi-lo, Geisel, antes de qualquer outro comentário, perguntou, para surpresa dos presos, que não o acreditavam culto:
- Isso não é de Dante Alighieri?
- É - respondeu Jambeiro.
- Vejo que há algum intelectual aqui - disse o general. 
Foi então que o poeta Camilo de Jesus Lima, adiantou-se e, sereno e firme, respondeu:
- General, intelectuais somos todos os que aqui estamos. E intelectuais a serviço do povo, dedicados à libertação do Brasil e à liberdade de todos os brasileiros, intelectuais lutando por uma causa justa. 
Os fotógrafos que acompanhavam os vários repórteres presentes quando viram Lima se adiantar e começar a falar, postaram-se para fotografá-lo, mas a um simples aceno de Mendes Pereira para seus oficiais, e eles desapareceram, instados pelos comandados de Pereira. 
Lima, lembra Nudd David de Castro, quando chegou, e foi um dos últimos a chegar, representou uma espécie de bálsamo para a árida atmosfera que respiravam. Poeta sensível, pena refinada, amante inveterado, gostava de declamar os poemas dedicados às suas mulheres. "A chegada dele nos deu outro alento. Já estávamos cansados das mesmas caras. Ele deu outro ânimo à nossa convivência, com sua alegria, sua verve, seu bom humor, sua poesia", explica Castro. 
Depois que Lima falou, Geisel disse de sua missão e que iria examinar tudo com atenção. Acaso tivessem razão, fosse verdadeira a afirmação deles de que o STM tinha concedido um "habeas corpus", eles seriam soltos nos próximos dias. E de fato, poucos dias depois, um a um, começaram a ser soltos. Desconfiados, antes que o primeiro ganhasse a liberdade, combinaram..

Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de "Marighella, o inimigo número um da ditadura militar".

 

 

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
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Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
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Capítulo 8
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Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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