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Lembranças do mar cinzento (XXIX)

Emiliano José*

No último capítulo, a nossa história girava em torno da visita do general Ernesto Geisel, então chefiando a Casa Militar do general Castelo Branco, primeiro presidente da República da ditadura militar implantada em 1964. Corria o segundo semestre de 1964.  Depois que Geisel se despediu, um dos coronéis que o acompanhava, voltou à cela, conversou aproximadamente 10 minutos procurando saber a situação de cada um e ao final  tentou tranqüilizar a todos:

_Não se preocupem. A situação de vocês vai ser resolvida.

O leitor mais atento, o que está tendo a paciência de acompanhar esta série, lembra-se que os presos haviam sido seqüestrados para que não fosse cumprida um habeas-corpus do Superior Tribunal Militar, conseguido pelo advogado José Borba Pedreira Lapa, que determinara a soltura deles.

O habeas-corpus beneficiava Othon Jambeiro, Camilo de Jesus Lima, Carlos Augusto Contreiras de Almeida, Fernando Alcoforado, Milton da Costa Oliveira, Milton de Carvalho Silva, Nudd David de Castro, Rubem Dias do Nascimento, Sebastião da Silveira Carvalho e Wladimir Pomar. Apenas Milton de Carvalho Silva fora solto, por razões explicadas anteriormente.

Após a visita de Geisel, as visitas de familiares e amigos foi restabelecida, e aos poucos começaram a ser libertados. Othon Jambeiro lembra-se do dia em que saiu: 10 de outubro de 1964. Não sem um diálogo áspero com o general Mendes Pereira. Antes de ser soltos, os presos eram chamados ao Quartel-General, à presença de Pereira. Este, antes de libertar Jambeiro, disse-lhe:

_O senhor trate de se comportar bem para não ser preso novamente!

_Eu não posso ser libertado porque se me pedirem documentos na rua posso ser preso de novo – disse Jambeiro, provocativamente, irritado com a advertência do general.

_Onde estão seus documentos?

_Foram apreendidos pela polícia na minha casa, e não me foram devolvidos.

O general chamou um ajudante de ordens, e este o levou a uma sala onde  Jambeiro pegou apenas o documento de identidade. O restante dos papéis apreendidos no apartamento ficou em poder dos militares.

Othon Jambeiro foi arrolado no processo em que figuravam, além dele, Natal Teixeira Mendes, geólogo ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Aristiliano Braga, que havia sido presidente da União dos Estudantes da Bahia (UEB), Carlos Alberto Oliveira dos Santos, mais conhecido como Caó, jornalista e ligado também ao PCB, Fernando Alcoforado, engenheiro, e Fernando Machado. O processo  correu lentamente.

Um pouco antes do julgamento, todos estavam certos de que seriam absolvidos. E baseavam-se, para tal crença, numa sofisticada, abrangente análise feita por Caó. Já um jornalista de nomeada, convivendo com os melhores analistas políticos do país, ele próprio repórter político do Jornal do Brasil,  dissera aos  seus companheiros de processo, que a conjuntura indicava a absolvição. Venceu inclusive a relutância de alguns em comparecer ao julgamento, que ocorreu em 1970.  A avaliação de Caó indicava que a ditadura naquele momento estava preocupada com as organizações da esquerda armada,  e não com o PCB, e que, por isso mesmo, não se interessaria em condená-los, simples estudantes quando do golpe militar. 

A análise pecou pela ingenuidade, provavelmente. Todos, à exceção de Natal Teixeira Mendes (e apenas porque era menor à época do golpe militar), foram condenados. A maioria condenada a um ano, Caó a dois. Os companheiros de Caó até hoje cobram dele essa análise de conjuntura, como o fizeram no dia 19 de fevereiro de 2000, quando de uma confraternização dos que foram presos na Bahia em 1964, realizada no Baby-Beef,  restaurante de Salvador. 

Ficaram presos na Casa de Detenção, que funcionava à época no Forte de Santo Antônio. Todos lembram-se do diretor do presídio, Carlos Alberto Pedral Sampaio. E lembram-se pela correção e dignidade, pelo seu senso de humanidade. Poucos dias após a chegada, Pedral Sampaio permitia que os presos saíssem uma vez por mês para visitar os familiares. Às vezes, até uma vez por semana, a depender da conjuntura do momento. A saída era às 18h. A volta, 6h do dia seguinte. A regra era ir de táxi, não circular nas ruas de nenhum modo para não prejudicar os outros e não desestabilizar o próprio Pedral Sampaio. Se um fosse visto andando por Salvador, o benefício seria suspenso imediatamente. 

De fato, era uma ousadia permitir essas saídas. O ano de 1970 foi marcado por um crescimento notável da repressão. Já vigorava o AI-5, e mais do isso, a partir de 1969, a ditadura intensificou a caçada às organizações da esquerda armada, absoluta prioridade da ditadura naquele momento – nisso, Caó estava certo; só que não atentou para o fato de que os militares não pretendiam passar a mão na cabeça de militantes do PCB.

Na Bahia, as ações da esquerda armada ainda engatinhavam, e não chegarão a crescer. Em maio de 1970, o assalto ao Banco da Bahia, na Liberdade, feito pelo Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), marca a primeira e quase solitária ação, já contada nesta série. Em outubro de 1970, caem Theodomiro Romeiro dos Santos e Paulo Pontes da Silva, para falar dos militantes mais destacados do PCBR. Cada um desses acontecimentos, era uma mudança de conjuntura para quem estava preso, mesmo para os militantes do PCB. Por isso, às vezes o intervalo entre uma saída e outra, para a visita aos familiares, era de um mês. Outras vezes, uma semana. Jambeiro e os demais sairão em 1971 da prisão. Caó, em 1972.

Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de “Marighella, o inimigo número um da ditadura militar”.

 

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
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Capítulo 14
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Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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