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Lembranças
do mar cinzento (III)
Quando era jogado de volta à cela após a tortura, sentia um alívio profundo.
Não apenas o alívio físico, evidente, mas o espiritual. Não sabia até onde iria
minha resistência, mas sentia-me forte diante dos torturadores. Já ganhando
a convicção de que de mim eles não arrancariam nada. As celas do Quartel do
Barbalho, e trabalho apenas com a lembrança que me ficou na memória, eram grandes,
provavelmente uns quatro, cinco metros de frente por uns 10 metros de fundo.
Nos dois primeiros dias, dormi no chão de cimento, e dormir é força de expressão,
porque não se dorme numa situação dessas. Cochila-se sobressaltado, em meio
a pesadelos permanentes, sem que saiba a fronteira entre o real e o imaginário.
Quando você acorda, percebe que a realidade é bem pior.
Não sei se no segundo ou terceiro dia, tive febre. Nem sei as razões, talvez
o fato de dormir no cimento frio, sei lá. Os torturadores trouxeram um colchão
fino, deram-me uma aspirina ou coisa semelhante, e eu melhorei. No dia seguinte,
chegou um jovem, talvez da minha idade, preso, que foi jogado na cela em que
eu estava. Corajoso, gritava com os policiais, como se fosse um militante. Claro
que desconfiei. A política da repressão nos primeiros dias era sempre a de deixar
o preso isolado. Aquela valentia toda não era comum, e nem era prática nossa
afrontar gratuitamente soldados e cabos, como ele fazia. Disse-me que sairia
logo, que eu lhe desse endereços de quem ele pudesse procurar, e ele tomaria
providências.
Prudente, desconfiado, mantive o que dissera na tortura: não conhecia nenhum
endereço em Salvador, ficava em casa de estudantes, das quais nunca gravara
a localização. Podia lhe dar o dos meus pais em São Paulo. Afinal, pensava eu
com meus botões, acaso este sujeito seja de fato alguém interessado em ajudar,
poderá procurar minha família, e ela tomará providências quanto à minha prisão.
Se for um tira, não haverá problema, porque a repressão já esteve lá várias
vezes, chegando, inclusive, a prender meu pai, que nada sabia de minhas atividades
políticas, tendo apenas uma noção muito vaga do que estava fazendo na clandestinidade.
Mais tarde, confirmou-se: era um tira. Tentaram obter de outra maneira o que
não haviam conseguido na tortura.
Passados creio que uns oito, 10 dias, fui chamado à sala do comandante da Polícia
do Exército, Hemetério Chaves Filho, ele mesmo um torturador, como já dito,
onde alguns homens engravatados, fortes, bem barbeados, me esperavam. Talvez
me lembre do detalhe da indumentária deles porque eu permanecia com minha calça
surrada de jeans, sustentada por um barbante já que me tiraram o cinto, e sem
camisa. Disseram-me que eram do Cenimar (Centro de Informações da Marinha),
especializados em Ação Popular (AP). Que já sabiam quem eu era. Passei a ser
eu mesmo. Disse-lhes que mantinha tudo o que eu dissera antes. Chaves Filho
apenas observou, sem dar uma palavra. Não houve tortura.
Provavelmente, o Cenimar chegou até mim depois que em Salvador surgiram várias
pichações pelos muros da cidade pedindo "Liberdade para Emiliano", forma que
os companheiros de AP encontraram para tentar proteger minha vida. Claro, se
estavam pedindo liberdade para este cidadão, é sinal de que ele está preso.
E, por exclusão, chegaram a mim. Creio que antes mesmo de responder ao inquérito
na Polícia Federal, fui chamado de novo à sala do comandante-torturador, e dessa
vez a surpresa era agradável. Era a visita de um advogado: Inácio Gomes, o primeiro
a me ver no Quartel do Barbalho.
É difícil imaginar o significado de uma visita como essa. Com ela, passa-se
a acreditar na possibilidade da sobrevivência. A prisão já havia se tornado
pública, e isso dificultava o assassinato, previsível nas condições de então.
Registra-se, em 1970, o assassinato, pelos órgãos repressivos, de 22 militantes
políticos, afora os desaparecidos, entre os quais, naquele ano, Mário Alves,
dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). A visita de
Inácio Gomes foi providencial, e um dia de muita alegria. Ele não se lembra
exatamente quem o procurou para pedir a visita, mas certamente foram companheiros
de AP, preocupados em preservar a minha vida. Um gesto como este, de Inácio
Gomes, jamais será esquecido.
Fui preso em 23 de novembro de 1970. No dia 8 de dezembro do mesmo ano, festa
de Conceição, fui levado à Polícia Federal. Abria-se oficialmente o inquérito.
É também um momento importante. Com isso, o cidadão está legalmente preso, sob
a guarda do Estado. Até ali, nas condições da ditadura, eu não existia. Eles
podiam sumir comigo, como fizeram com tantos, e ponto final. De alguma forma,
posso dizer que foi um dia feliz. Mantive tudo o que dissera na tortura, e me
disse contra a ditadura, tudo devidamente registrado. O sujeito que tomava o
meu depoimento me avisou:
- Pode anotar: você vai passar muitos anos preso.
A ameaça irá se cumprir. Só sairei da prisão, em liberdade condicional, em setembro
de 1974, quase quatro anos depois. Depois de passar uma tarde inteira respondendo
às perguntas do inquérito, voltei ao Barbalho. Fisicamente ainda um trapo, e
ainda com minha calça amarrada com barbante, e ainda sem camisa, até ali sem
um banho sequer. Mas inteiro, sereno, certo de que até ali tinha sido leal aos
meus princípios e aos meus companheiros.
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