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Lembranças do mar cinzento (XXX)
Emiliano José


Fernando Alcoforado ingressou na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, em 1961. E a Politécnica foi também sua escola política. Ali tomou consciência dos problemas brasileiros e engajou-se, então, na luta, como ele mesmo explica hoje, pelo desenvolvimento do país, pela libertação do Brasil do jugo do imperialismo, principalmente o norte-americano, e pela construção de uma sociedade socialista. 
Na noite em que começaram as movimentações golpistas de 1964, Alcoforado pretendia assistir a um filme no Cine Excelsior, na Praça da Sé, Centro de Salvador. O encontro com Fidenciano Faria, colega de escola, o fez desistir do cinema, dar meia-volta e começar as articulações da resistência ao golpe. Passou a noite de 31 de março de 1964 junto com outros colegas, como Carlos Alberto Oliveira dos Santos (Caó), Fernando Machado, Haroldo Lima e Carlos Roberto Dias, tentando acompanhar os acontecimentos ouvindo os seguidos noticiários. Nas conversas desta noite, concluíram que tinham que combater o golpe. 
No dia seguinte, nessa perspectiva, voltaram a se reunir, agora contando também com a participação de lideranças sindicais, como Mário Lima e João dos Passos. Nesse dia 1º, algumas pessoas foram destacadas para ir a Feira de Santana, que poderia ser um dos centros da resistência no Estado, pois o prefeito, Francisco Pinto, era um homem claramente identificado com o pensamento de esquerda e já havia manifestado a sua disposição de resistir ao golpe. Outros, entre eles Alcoforado, ficaram em Salvador, também para organizar o combate aos militares golpistas. A essa altura, Alcoforado não voltara mais para casa, situada na Travessa São Vicente, 10, nos Barris, bairro contíguo ao centro. E tomara essa precaução porque soube que a polícia já o procurara. 
Já no dia 2 de abril, no entanto, Alcoforado e mais Caó, Antônio Carlos Tramm e Raimundo Brochado, que eram muito unidos, perceberam que as possibilidades de resistência eram mínimas. Muitas lideranças tinham sumido, certamente pela certeza de que seriam presas se não o fizessem. Uma irmã de Tramm aconselhou-os a sair da capital. E Caó disse, então, que tinha uma casa na Ilha de Itaparica, para onde foram os quatro, no dia 3 de abril. Entre os dias 3 e 12 de abril, a irmã de Tramm, Ivone, os abasteceu de jornais, de comida, de cigarros, numa ida e vinda constante durante diversas noites entre a ilha e Salvador.
No dia 12, resolveram sair da casa de Itaparica, pois a situação era insustentável. Seriam descobertos mais cedo ou mais tarde. E se separaram. Tramm e Alcoforado foram para uma casa em Itapuã, e Ivone continuava sua tarefa de zelar pelos suprimentos. Mas alguém deve ter percebido a movimentação estranha, e no dia 14 de abril, na madrugada, bateram à porta. Pela portinhola, Tramm viu o aparato militar que estava à porta, e tentou, junto com Alcoforado, escapar pelos fundos, onde, no entanto, um outro contingente de soldados da Aeronáutica estava devidamente postado, com as armas engatilhadas. Tramm, que era secundarista, não foi condenado, mas Alcoforado, sim, como já contado anteriormente. 
Entre a prisão e a espera do julgamento (1964 a 1970) Alcoforado havia se aproximado de organizações da luta armada, particularmente da Var-Palmares. A condenação deu oportunidade a Alcoforado de refletir calmamente sobre os rumos da luta revolucionária e de concluir que o caminho armado era equivocado naquela conjuntura. Ao sair da prisão, em 1971, foi morar e trabalhar no Rio de Janeiro. Nunca deixou, no entanto, de dar apoio a companheiros que conhecia, inclusive àqueles que estavam na clandestinidade. 
No dia 6 de setembro de 1975, recebeu a visita de José Milton Almeida, engenheiro, seu colega de escola, e naquele momento ligado ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). Almeida deixou-lhe uma mala e uma senha que ele deveria passar para uma pessoa que o procuraria. Combinou que Alcoforado deveria lhe devolver a mala no dia seguinte, na Praça Saenz Pena, na Tijuca. Ao cumprir a tarefa, no dia 7, foi preso por policiais do DOI-Codi. Almeida havia caído. No DOI-Codi, tiraram-lhe a roupa, e os vários torturadores revezavam-se, e enquanto o supliciavam de variadas maneiras – pau-de-arara, afogamento, socos, pontapés, choques elétricos – liam pausadamente os artigos da Declaração dos Direitos Humanos da ONU. Enfrentou também, por três dias, a geladeira – um local todo branco, com o ar-condicionado ligado ao máximo, muito frio, com aparelhagem de som que reproduzia os gritos de pessoas sendo torturadas. 
Doralice Alcoforado, sua mulher, já havia destruído a senha, e levado os filhos, Paulo, de cinco anos, e Cláudia, de quatro, para a casa dos amigos Fernando e Eliete Machado. Quando voltou à sua casa, foi presa. Quando ela chegou ao DOI-Codi, Alcoforado, com um olhar, passou-lhe a idéia de que estava tranqüilo, para que ela também tivesse calma para enfrentar os torturadores. Doralice foi muito pressionada, mas não torturada fisicamente. Fora, o superintendente de Planejamento da Light, Júlio Jalonetsky, de quem Alcoforado era assessor, movimentou-se muito, ao tempo em que Lisâneas Maciel, deputado à época, também se articulava para a libertação dos dois. Alcoforado, depois de enfrentar 15 dias sob tortura no DOI-Codi, foi mandado para o Dops, onde não foi mais importunado. Ficou mais 15 dias preso. Quando saiu, em 7 de outubro de 1975, estava 15 quilos mais magro. 
A Light, depois de ter ajudado na sua libertação, chamou-o, logo que voltou, e informou-lhe que não poderia mantê-lo nos quadros da empresa. O Exército havia exigido a sua demissão, sob o argumento de que, numa área estratégica como a de energia, um subversivo não podia trabalhar. Atualmente, Alcoforado mora em Salvador e preside o IRA – Instituto de Altos Estudos Rômulo Almeida –, instituição que se dedica à reflexão e discussão dos problemas brasileiros. 

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
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Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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