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Lembranças
do mar cinzento (IV)
Theodomiro Romeiro dos Santos e Paulo Pontes da Silva, dois dos meus companheiros
do Quartel do Barbalho, e com quem estive preso por quase quatro anos na Penitenciária
Lemos de Brito em Salvador, jamais se esquecerão de uma música cantada por Toni
Tornado, naquele final de 1970. Os vários torturadores que se revezaram no suplício
a que os submeteram colocavam o disco no maior volume que podiam, e eles ouviam
a frase sintomática, provocativa: "a gente corre, a gente morre na BR-3". Queriam
certamente que os dois soubessem que eles já tinham conhecimento de que ambos
pertenciam ao BR, diminutivo do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
(PCBR), no qual militavam.
E os choques elétricos eram dados no compasso da música, de modo que gritassem
no mesmo momento em que Toni Tornado também gritava. Eram obrigados a participar
de uma macabra sinfonia. Foram presos no dia 27 de outubro, e a história já
é relativamente conhecida, mas em nome da memória é bom relembrar. Quatro homens
à paisana tentaram prendê-los no Dique do Tororó, por volta das 21 horas. Um
dos companheiros deles, Getúlio Cabral, que será morto mais tarde pela repressão,
conseguiu escapar atirando. Preocupados em perseguir Cabral, devolveram uma
pequena pasta preta que havia tomado de Theodomiro.
Nela havia um revólver. Mesmo algemado a Paulo Pontes, Theodomiro, com a mão
esquerda livre, saca o 38 e começa a atirar, com a pretensão de escapar. Acerta
o sargento da Aeronáutica Walder Xavier de Lima e o agente federal Hamilton
Nonato Borges. O primeiro morre, o segundo, ferido, desarma Theodomiro, espanca-o
seguidamente com coronhadas, ajudado pelo cabo Odilon Costa e o também agente
federal José Freire Felipe Filho. Na Polícia Federal, para onde foram levados,
foram submetidos a uma impressionante sessão de tortura, comandada pelo próprio
coronel Luiz Arthur de Carvalho, superintendente da Polícia Federal.
Foram horas de selvageria desencontrada, de puro ódio, sem qualquer objetivo
mais preciso. Ficaram banhados em sangue, os dois algemados um no outro. Depois
separaram os dois, torturando-os separadamente. Theodomiro sangrava tanto que
o coronel Luiz Arthur de Carvalho mandou chamar um enfermeiro no Segundo Distrito
Naval para cuidar dos ferimentos, sobretudo os da cabeça, cheia de cortes provocados
pelas coronhadas persistentes. O enfermeiro pegou um vidro de éter e derramou
inteirinho na cabeça de Theodomiro, cuidando para que uma boa quantidade lhe
chegasse às faces e aos olhos, o que o enlouqueceu de dor. Depois de algum tempo,
a tortura passou a ser mais metódica: os socos e as pancadas com cassetetes
concentravam-se nos rins e joelhos, principalmente no direito, já bastante inchado.
Quando o dia 28 começava a clarear, desmaiou.
No dia 29 de outubro, à noite, os dois são levados para o Quartel do Barbalho.
Lá, durante 12 dias, de modo intermitente, foram submetidos ao pau-de-arara,
choques, afogamentos. No Barbalho, as perguntas já tinham objetivos mais claros.
Queriam informações sobre o PCBR, de natureza variada. Com Paulo, além da música
de Toni Tornado, faziam outra crueldade. Ele usava o nome falso de José Fernandes
da Silva. Perguntavam o nome e ele ia respondendo. Quando dizia José levava
choque. Falava Fernandes, outro choque. No da Silva, o choque parava. Era a
forma de eles dizerem que já sabiam o nome dele: Paulo Pontes da Silva.
Foram muitos os torturadores que se revezaram com Theodomiro e Paulo. Além do
coronel Luiz Arthur de Carvalho, o inspetor da Polícia Federal Alfredo Ângelo
de Aquino Filho, mais tarde delegado da Polícia Federal no Rio de Janeiro, o
major Antônio Bião de Cerqueira e o capitão Hemetério Chaves Filho (que comandava
a Polícia do Exército no Quartel do Barbalho) e o cabo do Exército Dalmar Caribé,
todos da Bahia. De Pernambuco, especialmente para interrogar Paulo Pontes, vieram
vários policiais, entre os quais Luís Miranda e Ordolito Azevedo, diretor do
DOPS de Pernambuco, que se notabilizaram pela prática de torturas e pelo assassinato
de vários militantes.
Paulo lembra-se até hoje do dia em que Miranda chegou com os demais policiais
pernambucanos no Quartel do Barbalho. Miranda era uma espécie de Sérgio Paranhos
Fleury pernambucano. O policial, que já o conhecia (Paulo havia passado alguns
meses preso no primeiro semestre de 1968, em Recife), pediu-lhe que fizesse
alguns exercícios de apoio no solo para que eles vissem. Recusou-se e foi brutalmente
espancado por todos eles, ajudados pelo cabo Dalmar Caribé. Este, no dia 27
de novembro, aniversário da insurreição armada de 1935, comandada pelos comunistas,
colocou vários soldados à frente da cela de Theodomiro e espancou-o brutalmente
junto com outros quatro agentes. Os próprios soldados e sargentos perguntaram
o porquê daquilo, e ele respondeu:
- Foi o major que mandou!
Naturalmente deveria estar se referindo ao major Antônio Bião de Cerqueira,
da Segunda Seção do Exército, ativo participante das torturas, como já se disse
anteriormente. Depois deste dia 27 de novembro, os dois não foram mais torturados.
Logo depois de Theodomiro e Paulo, Dirceu Régis e Wellington Freitas também
foram presos. O primeiro, bastante torturado. Quando cheguei ao Barbalho, no
dia 23 de novembro de 1970, encontrei os quatro lá. Depois de algum tempo, ficamos
na mesma cela eu, Wellington e Dirceu. Paulo e Theodomiro ficavam em celas separadas,
sozinhos. Mais tarde, conviveremos no mesmo espaço, na Galeria F, na Penitenciária
Lemos de Brito, na Mata Escura, em Salvador.
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