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Lembranças do mar cinzento (V) 

A ação tinha sido meticulosamente planejada. Parecia que nada daria errado. O Grupo de Fogo do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) iria ter o seu primeiro teste no Estado. Para o interior do Banco da Bahia, à Avenida Lima e Silva, na Liberdade, iriam Prestes de Paula, o comandante da operação, e mais Paulo Pontes, Theodomiro Romeiro dos Santos, Valdir Sabóia e Fernando Augusto da Fonseca. No carro de espera ficaria Alberto Vinícius. Haveria um outro carro, de cobertura, no qual estariam Getúlio Cabral, Adeíldo Fonseca e Bruno Maranhão. Estes teriam a função de conter qualquer tentativa das forças policiais de reprimir o assalto ao banco. Mas nem tudo correu como se esperava.
No dia 25 de maio de 1970, os cinco entraram no banco, como combinado. Só que Prestes de Paula gritou antes da hora, o que impediu até mesmo que Paulo Pontes tivesse chance de colocar a máscara, o que ainda foi feito pelos outros. Todos sacaram suas armas, e elas, mais que os gritos, deram consciência a todos que de fato tratava-se de um assalto. Valdir e Theodomiro subiram para o primeiro andar. Paulo, com dois revólveres nas mãos, manda todo mundo para o banheiro, no subsolo, e fica vigiando. Mas, sem que soubessem como isso podia ter ocorrido, de repente começam os tiros. Tomam consciência de que se trata da polícia, que a cobertura não funcionara, e reagem. Era tiro para todo lado. Cinco policiais contra os cinco militantes do PCBR.
Era uma gritaria infernal, e os tiros estilhaçaram os vidros do banco. Paulo Pontes, que foi minha fonte para recuperar os fatos desse capítulo, lembra-se até hoje de um sujeito, dentro de um carro, colhido no meio da fuzilaria, estupefato, paralisado, sem saber o que fazer. Quando Prestes de Paula dá a ordem para a retirada, Paulo é o primeiro a sair, e o tal sujeito sai do carro, abre os braços, como que a perguntar a um Paulo armado com dois revólveres sobre o que deveria fazer. Paulo teve o sangue frio de dar dois tiros apontados para os pés dele para que fugisse, e só então ele saiu correndo.
A essa altura, dois policiais - um escrivão de polícia e um soldado - já estavam feridos. Paulo entra no banco da frente do Aero-Willis que tem Alberto Vinícius ao volante, sem nunca se apartar de um revólver 38 e outro 32. Theodomiro, Valdir e Fernando estão vindo, arrastando dois sacos repletos de dinheiro, Paulo, ainda ouvindo tiros, vira-se para trás, e aperta o gatilho, arrebentando o vidro de trás. Isso cria uma grande confusão, há a sensação de que alguém está ferido e Prestes de Paula dá a ordem de seguir, obedecida por Vinícius, e um dos sacos de dinheiro, exatamente o que tinha a maior importância, fica no meio da rua.
Só mais tarde, já contando o dinheiro que haviam conseguido com o assalto, sem ninguém ferido, os que entraram no banco souberam como a polícia tinha conseguido chegar até eles tão rapidamente. Acontece que muito próximo do banco havia uma Delegacia de Polícia. O PCBR havia feito o levantamento da área e sabia disso. Mas tinha a convicção de que, acaso os policiais percebessem o assalto, teria todas as condições de fazer a cobertura e impedir que chegassem até o banco.
Ocorre, no entanto, que o rifle que Getúlio, Adeíldo e Bruno levavam, falhou no exato momento em que um deles iria atirar no carro da polícia, que passou por eles sem sequer perceber-lhes a existência. E quando Getúlio ia manusear o seu revólver, um detetive que ia passando pelo local por acaso, observando toda a movimentação, encostou uma arma na cabeça dele e disparou, mas esta também negou fogo, e Getúlio, irritado com a intromissão do policial, saiu correndo atrás dele, atirando. O fato é que a cobertura não funcionou e foi a proximidade da delegacia que permitiu que a polícia chegasse tão rapidamente ao local - porque alguém avisou ou porque os próprios policiais perceberam a movimentação.
Esta foi a grande ação do PCBR em Salvador. Não custa dizer, sobretudo para quem não viveu aqueles tempos, que o assalto a banco era um mecanismo de conseguir fundos para a atividade revolucionária. O partido havia começado a se reestruturar em Salvador desde o início de 1970. Era uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro e sua formalização como partido ocorreu em abril de 1968. No início de 1970, a ditadura mata Mário Alves, baiano, dirigente comunista conhecido e principal liderança do PCBR, empalando-o no DOI-CCDI, na Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. E prende quase toda a direção nacional. Por isso, falo em reestruturação.
Foi em Salvador que se montou a nova direção nacional, composta de apenas três membros. Os novos dirigentes radicalizaram a linha da luta armada, assumindo uma perspectiva nitidamente militarista, dando menos ênfase à política e mais às armas, e faziam isso numa nítida situação defensiva, onde era evidente a superioridade das forças do inimigo, no caso a ditadura. Não se sabe o que teria sido o BR com dirigentes do porte de Mário Alves, Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender orientando-o. É possível que conseguissem conter o ímpeto militarista, e insistir num longo e paciente trabalho junto ao povo, mas isso é apenas uma especulação.
Na Bahia, a direção do PCBR era composta por Paulo Pontes, Renato Ribeiro e Dirceu Régis. Além deles, militavam ao partido, além do próprio Theodomiro, que viera de Natal, Wellington Freitas, Natur de Assis Filho, Roberto Albergaria, Wagner Coqueiro, Renato Afonso, Marcos Afonso de Carvalho, Ricardo Nóbrega e Wesley Macedo, entre outros. Foram presos e cumpriram pena Theodomiro, Paulo, Wellington e Dirceu, presos no final de 1970 e, mais tarde, em períodos diferentes, Renato Afonso, Wesley Macedo Bonfim e Natur de Assis Filho. A mulher de Paulo, Lourdes Maria Wanderley Pontes, também clandestina e que morava com ele em Salvador, conseguiu escapar. No Quartel do Barbalho, quando cheguei preso em novembro de 1970, foram os companheiros do BR que me deram força e ânimo. Eles me fizeram sentir, naquele momento como nunca, a exata e grandiosa dimensão da solidariedade humana.

 

Todos os capítulos - Série 3
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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