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Lembranças do mar cinzento (VIII) 

As eleições para a Câmara de Deputados, que haviam acontecido em 15 de novembro de 1970, registraram 30% de votos nulos ou em branco. Aqui, começo a falar rapidamente sobre traços da conjuntura de então, como prometido ao final do último artigo. Tal atitude do eleitorado poderia contribuir para a crença de que a ditadura estava se isolando, e creio que muitos de nós, e muitas organizações revolucionárias, desenvolvemos tal interpretação. Afinal, à exceção do Partido Comunista Brasileiro (PCB), as demais forças de esquerda haviam feito uma campanha pelo voto nulo, obviamente limitada, restrita aos panfletos possíveis, às pichações de muros, a raríssimos comícios-relâmpagos.
Os votos nulos e brancos podem ser explicados muito menos por essa campanha e mais, de um lado, pela indiferença do eleitorado mais atrasado e, de outro, pelo repúdio espontâneo daqueles setores mais politizados. A ditadura, desenvolvendo uma das repressões mais ferozes da história do Brasil, não enfrentava sérias dificuldades, no entanto. O crescimento econômico de mais de 10% ao ano, o desenvolvimento de uma linguagem nacionalista, a vitória na Copa do Mundo configuravam um cenário momentaneamente favorável aos militares, apesar de tudo.
O governo Médici, já contando com a Rede Globo - o Jornal Nacional, iniciado em 1969, era uma espécie de diário oficial do regime -, isola a esquerda, que perde inteiramente suas bases sociais, sua vinculação com o povo. É neste cenário de isolamento que o aparato policial-militar-terrorista montado por Médici vai aniquilar a quase totalidade da esquerda armada, assassinando cruelmente seus melhores combatentes. O confronto entre a esquerda armada e a ditadura reduzia-se ao campo militar, e neste Exército, que se envolveu diretamente na repressão, era muito mais poderoso. O que houve, neste momento, e em pouco tempo, foi um massacre. O general Adyr Fiúza de Castro, um dos que tiveram a ousadia de dizer-se a favor da tortura, usou uma metáfora para definir o que foi esta luta, reveladora da mentalidade terrorista dos comandantes militares de então: matou-se uma mosca com martelo-pilão. O método - o de colocar o Exército na luta contra as organizações da esquerda armada -, dizia o general-torturador, "mata a mosca, pulveriza a mosca, esmigalha a mosca, quando, às vezes, apenas com um abano é possível matar aquela mosca ou espantá-la". O depoimento do general, impressionante pelo cinismo e rico pelas revelações, está no livro "Os anos de chumbo - A memória militar sobre a repressão", organizado por Maria Celina D'Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, e é da Editora Relume Dumará. Fiúza de Castro comandou a 6ª Região Militar, sediada em Salvador, entre 1975 e 1978.
Na Bahia, no campo político, vivia-se a passagem de guarda. Saía o governador Luiz Viana Filho, nomeado pelos militares, entrava Antônio Carlos Magalhães, nomeado pelos militares. Como se sabe, ninguém era governador senão contasse com a confiança absoluta da ditadura, se não comungasse de tudo aquilo que ela vinha fazendo. Havia uma espécie de teste, e o critério básico era o da fidelidade político-ideológica. O próprio Antônio Carlos Magalhães dirá à época, explicando como chegara ao seu segundo mandato biônico: "Ninguém ignora como foram indicados os governadores no Brasil. Participaram desta escolha o organismo político, o SNI e os comandos militares. A maior demonstração de que eu passei em todos os testes foi ter sido indicado". Antes, ele já havia sido prefeito biônico de Salvador, e será novamente governador por delegação dos militares entre 1979-1983. Médici terá no governo da Bahia um homem inteiramente identificado com seus métodos.
Antes que chegássemos ao Quartel do Barbalho, outros companheiros haviam nos precedido. Coisa de um ano antes.
Final da tarde do dia 17 de outubro de 1969. Ruy Patterson passara o dia numa angustiante espera numa das celas do Quartel do Barbalho. E à angustia acrescentou-se o terror quando o capitão Hemetério Chaves Filho, mais o cabo Dalmar Caribé e um sargento-enfermeiro apareceram, arrastando um corpo. Era difícil definir o estado daquele homem: o sangue escorria por todos os lados e a metade superior do corpo estava toda coberta de lama. Era óbvio que havia sido muito torturado, violentamente espancado. Fora mergulhado várias vezes no fosso do quartel, onde havia água e lama, de cabeça para baixo. Estava semidesmaiado, dele não saía um fio sequer de voz. Era um trapo humano, jogado abruptamente à frente da cela de Ruy.
Sentiu dor e medo. A dor profunda de ver um companheiro naquele estado. O sangue e a lama que tomavam todo o rosto não conseguiam obscurecer o olhar decidido de Nemésio Garcia, seu companheiro de lutas, parte da mesma organização a que ele pertencia. Despedaçado e inteiro - eis o paradoxo da situação de um homem bom e corajoso, como era Nemésio, que mais tarde será meu companheiro na Galeria F da Penitenciária Lemos de Brito. Bom e leal, e talvez por isso tão torturado. Dor, muita dor era o que Ruy sentia ao ver Nemésio naquele estado. E muito medo, o medo do que estava por vir. Sabia o que vinha pela frente. Que também experimentaria a tortura.
Hemetério Chaves Filho foi dizendo, sem rodeios:
- Ou você reconhece que é o Roque, ou vai sofrer o que este aqui está sofrendo.
- Ruy repetia:
- Eu sou apenas o namorado de Chantal.
Abriram o cadeado da cela, e levaram-no para a parte superior do quartel, onde ocorriam as torturas. E então...

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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