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Lembranças do mar cinzento (IX) 

Quando o retiraram da cela, algemado, Rui Patterson já sabia o que o esperava. Lembra-se da sala de tortura improvisada, na parte de cima do Quartel do Barbalho daquele 17 de outubro de 1969. Tratava-se da própria sala do comando do quartel, de onde despachava o capitão Hemetério Chaves Filho.
Era começo de noite. Deixaram-no por algum tempo sentado, sem que ninguém dissesse nada. Minutos que pareciam horas, angustiantes. Rui pôde observar o ambiente: o piso recoberto por um carpete verde; ao lado da mesa do capitão, um aparelho de som de última geração. Não parecia um local próprio para supliciar pessoas.
Passado algum tempo, o capitão Hemetério Chaves Filho começou:
- Você aqui vai revelar quem matou o Mar Morto. Vai dizer até quem envernizou a barata.
Rui insistia: era apenas namorado de Chantal Russi, nada mais. Como havia dito antes de subir para a sala do comando.
- Você é o Roque, comunista filho da puta!
- Não conheço nenhum Roque - repetia Rui.
Davam-lhe safanões, tapas na cara, nada que Rui não pudesse suportar. De alguma forma, havia se preparado para aquele momento. Apareceu então a figura sinistra do dentista. E Rui o chama de dentista não porque pudesse confirmar fosse de fato um cirurgião-dentista, mas porque usava uma broca. A cada negativa de Rui de chamar-se Roque, a broca era introduzida nos dentes. Uma dor quase insuportável.
Em meio às torturas, surgiu um oficial. Mais calmo, ponderado, quase amigo. Nos processos de tortura isso era muito comum. Existiam os maus, os que batiam, massacravam. E os bons, os que queriam resolver a situação, ajudar o suplicado. Claro que maus e bons, aqui, são faces de uma mesma moeda. Simulações do terror, encenações de torturadores.
- Olhe, se você quiser que tudo isso pare, eu estou aqui para ouvi-lo. Sou marido de um colega sua da faculdade. É só você confessar, que vai imediatamente para casa.
Rui manteve-se namorado de Chantal. Recusou-se a ser Roque, o nome frio que usava na militância clandestina. Levaram-no de volta à cela, sofrendo dores terríveis nos dentes.
No dia seguinte, trouxeram Nemésio Garcia, seu companheiro, quase irreconhecível devido às brutais torturas que havia sofrido, como revelei no artigo anterior. Em frente à cela onde Rui estava, Nemésio confirmava tudo. Baixinho, quase sem voz, ele dizia:
Rui é somente o namorado de Chantal. Ele foi apenas solidário conosco. Nemésio, dentre os presos da organização de Rui, era considerado o mais importante, e por isso foi o mais torturado e o mais insistentemente interrogado.
Chantal Russi também estava presa no Quartel do Barbalho. Tinha sido presa na mesma operação. Passados alguns dias, Rui é chamado pelo oficial do Exército responsável pelo inquérito. Leva-o em direção ao cassino dos oficiais, onde estava Chantal, e no caminho vai explicando:
- Chantal está muito aflita, quer transar com você, e eu vou deixar. Estou levando-o lá para que possam transar. Rui responde que aquilo é uma indignidade. Quer conversar com ela, acha ótimo que possa estar com ela, mas não aceita de modo nenhum transar naquelas condições.
Às vezes, imagina-se que a tortura física fosse o único caminho utilizado para obter informações. A mente dos torturadores, no entanto, ia além. Se pudessem quebrar as pessoas, descobrir suas fraquezas, seus pontos mais sensíveis, eles o faziam. Se pudessem humilhar os presos, humilhavam. Ao propor isso a Rui, o oficial humilhava-o, colocava-o numa posição delicada. Se aceitasse, de alguma forma tornava-se devedor do favor prestado por um torturador. Não aceitando, manteve-se de pé. E inteiro.
Foi para o 19º Batalhão de Caçadores (19º BC) no início de 1970. Primeiro, fica junto com soldados que cumpriram penas disciplinares. Mais tarde, nunca cela isolada. Depois, chegam Marie Russi, Chantal Russi, Getúlio Gouveia e Nemésio Garcia. Ficaram no 19º BC até 15 de julho de 1970, quando foram julgados. Rui, Marie, Chantal e Getúlio Gouveia foram condenados a 12 anos de prisão, Nemésio a 14 anos pela Auditoria Militar de Salvador (6ª Circunscrição Judiciária Militar, era assim que se chamava). A condenação era por portar armas privativas das Forças Armadas e por pertencer à organização revolucionária. No mesmo dia, os homens - Rui, Getúlio e Nemésio - são transferidos para a Penitenciária Lemos de Brito, na Mata Escura. As mulheres vão para a Detenção. A chegada deles três praticamente inaugura a Galeria F da Lemos de Brito. Dessa galeria, ocupada por presos políticos por quase uma década, ainda falaremos muito, mas o leitor há de continuar a cultivar a nobre virtude da paciência. Ainda não chegou a hora. O que resta saber, dos nossos últimos personagens, é como toda essa história começou. Rui Patterson, nascido em 18 de fevereiro de 1945, era um simpatizante das idéias de esquerda desde 1964, vinculado ao Sindicato dos Bancários de Ilhéus. Era então office-boy do Banco da Lavoura, futuro Banco Real. No Tiro de Guerra, tem contato com ferroviários presos, fica solidário com eles, sem alarde. No final de 1964, passa em concurso para o Banco do Brasil e é destacado para trabalhar em Ipiaú. Lá desenvolve atividades de esquerda independente. Pichou muros em favor do Movimento Contra a Ditadura. Um dia...

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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