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31/07/2004
Denúncia causa forte impacto na sucessão
Flávio Oliveira
Adversários na disputa pela Prefeitura de Salvador preferiram não tecer comentários sob o impacto eleitoral da denúncia de extorsão contra o deputado estadual Maurício Trindade (PSDB). Trindade é candidato a vice-prefeito na chapa "Salvador no Coração", encabeçada pelo também deputado estadual João Henrique Carneiro (PDT), que lidera as pesquisas há nove meses.
Ontem, A TARDE revelou que, em 1997, quando Trindade era da base de governo na Câmara de Vereadores, tentou extorquir o empresário mineiro Omar Braga, que participava de uma licitação para venda de leite à Prefeitura de Salvador. A reportagem teve acesso a uma gravação telefônica - feita pelo empresário - na qual o então vereador pedia 15% sobre uma verba federal de R$ 8 milhões para que a empresa de Braga, a Nutril Nutrimentos Industriais Ltda., com sede em Contagem, Minas Gerais, ganhasse a concorrência.
A chapa João Henrique e Maurício Trindade foi construída para viabilizar uma alternativa eleitoralmente consistente às candidaturas do PFL e do PT. Devido a seu trabalho assistencialista, Trindade agregava a João Henrique votos das camadas populares onde o pedetista não apresentava boa performance. O PSDB, aliado ao PDT, garantia um tempo total de seis minutos a João Henrique dentro do Horário Eleitoral Gratuito.
RUIM - "O episódio é uma lição de que nem tudo se resolve com aritmética eleitoral. Às vezes, sabedoria vira bicho e come o dono", avaliou o ex-deputado federal Domingos Leoneli, coordenador da campanha de Lídice da Mata. "O PSDB foi atrás dos votos desse rapaz, que era tido como um trunfo eleitoral, quase foi lançado candidato a prefeito e agora isso", completou.
Ainda aproveitando o clima eleitoral, Leoneli afirmou que o episódio exige explicações do prefeito Antônio Imbassahy e da secretária de Saúde, Audely Rocha. Na época em que a fita foi gravada, Trindade era aliado do prefeito e cita os dois como possíveis envolvidos no ato de corrupção. "Não existe corrupção sem corruptores e corrompidos. Corrupção não se pratica sozinho", justificou.
Leoneli também afirmou que a denúncia inevitavelmente vai ser usada no debate entre os candidatos a prefeito de Salvador, no domingo, na TV Bandeirantes. O ex-deputado se esquivou de analisar para quem os votos de Trindade migrariam. Antes de aderir à chapa de João Henrique, Trindade aparecia com média de dez pontos nas pesquisas de intenção de votos. "Para mim, o episódio é ruim para todo mundo. Contribui para o descrédito e desconfiança do povo para com os políticos e a política. E essa posição é a maior adversária de todos os candidatos", disse.
PROGNÓSTICO - O coordenador da campanha de Nelson Pelegrino (PT), o também deputado estadual Emiliano José, também preferiu não fazer previsões. Justificou sua opção afirmando que a denúncia tinha pouco tempo de divulgada e em respeito à candidatura de João Henrique. "É evidente que o caso tem conseqüências, mas a medida dessa conseqüência não é possível dizer agora. Não vou me aventurar a fazer qualquer prognóstico", falou.
Do mesmo lado da trincheira que Leoneli, o da oposição, Emiliano José também usou o episódio para atacar a administração municipal. "O episódio tem gravidade e fica evidente que a prefeitura vai ter de se explicar. A intervenção de Trindade está exposta, mas não está claro ainda o que aconteceu, quem ganhou a licitação, quanto vendeu de leite, quem teria auferido o resultado da corrupção", disse. "É mais um episódio em que a secretária Audely Rocha está envolvida. Quando fui vereador, a bancada do PT fez várias denúncias de corrupção contra ela", completou.
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