Justiça
MP
pede a cassação do prefeito de Coité
Promotora
constatou denúncias publicadas por A TARDE e
entrou com ação civil
Marconi
de Souza
O
prefeito de Conceição do Coité,
Wellington Passos de Araújo, financiou a construção
de uma fábrica sua e de seu pai com recursos
do município e do Estado. O fato foi denunciado
por A TARDE, em agosto de 2003, e gerou inquérito
no Ministério Público, que investigou
e constatou a irregularidade. A promotora Theresa Cristina
Pinto Rebouças ingressou com ação
civil pública pedindo a cassação
do prefeito no último dia 3.
“Está mais do que evidenciado que o prefeito
agiu com animus doloso ao utilizar-se de verba pública
para elevar não só o seu patrimônio
financeiro, como o de seus familiares”, disse
na ação. A promotora afirmou, ainda, “que
a conduta do prefeito não foi lastreada pelo
dever de honestidade, havendo ofensa aos princípios
da moralidade administrativa e da impessoalidade”.
E acrescentou: “O vetor primordial da sua conduta
foi beneficiar a si a seus familiares, utilizando-se
de verba pública para proprorcionar a instalação
da empresa Cotesi do Brasil, da qual faz parte da composição
societária”. Na ação civil,
a promotora pediu pagamento de multa, cassação
do mandato do prefeito e suspensão por oito anos
dos seus direitos políticos.
Foi pedido também o ressarcimento integral do
valor acrescido ao patrimônio da Cotesi do Brasil,
da qual ele é sócio. Por fim, a promotora
pediu a quebra do sigilo bancário e fiscal do
prefeito – entre 2001 e 2004 – e da empresa
Cotesi do Brasil. O juiz Gerivaldo Alves Neiva concedeu
um prazo de 15 dias – que se extingue no próximo
dia 18 de fevereiro – para que Wellington Passos
de Araújo faça sua defesa por escrito.
O GOLPE - A irregularidade no município de Conceição
do Coité começou no ano de 2000, quando
uma área de 14 tarefas foi desapropriada pelo
então prefeito Ewerton Rios de Araújo
Filho, que é primo de Wellington Passos de Araújo,
o atual prefeito. Na época, a prefeitura indenizou
os proprietários da área desapropriada
– foram pago R$ 3,5 mil – sob a alegação
de que se construiria casas populares no terreno.
O projeto, que beneficiaria centenas de famílias
carentes da região do sisal, foi usado na campanha
eleitoral de 2000 e posteriomente engavetado. A pretexto
de industrializar o município, o prefeito eleito
Wellington Passos – que é estudante de
Direito da Ucsal, em Salvador – começou
seu governo (em janeiro de 2001) doando a área
para construção de duas fábricas:
ViaUno (calçados) e Cotesi (têxtil).
A Cotesi foi anunciada como uma empresa de Portugal,
que produz fios, nylon e tapetes, tendo o sisal como
matéria prima. O prefeito de Conceição
do Coité não informou à Câmara
de Vereadores qual era o CNPJ da Cotesi, nem a composição
acionária da fábrica desde que as obras
começaram.
E o que correu em segredo nos últimos três
anos, foi desvendado com o registro feito, em julho
de 2003, na Junta Comercial do Estado da Bahia (Juceb).
A fábrica portuguesa Cotesi (Companhia de Têxteis
Sintéticos) é sócia da brasileira
Hamilton Rios Indústria Comércio e Exportação
Ltda, sendo que esta pertence ao prefeito, ao pai e
irmãos.
LAÇOS DE SANGUE – Na época, a Juceb
revelou que a Hamilton Rios Indústria estava
no nome de cinco sócios: Ana Nair Araújo
da Silva e Jaqueline Araújo Mascarenhas (irmãs
do prefeito); Marcelo Passos de Araújo (irmão
do prefeito); Hamilton Rios de Araújo (pai do
prefeito); e Wellington Passos de Araújo, o próprio.
A participação da família na Cotesi
do Brasil (nome que a empresa portuguesa ganhou em terras
brasileiras) é de R$ 1 milhão, que representa
45%.
Vale ressaltar que na Hamilton Rios Indústria
Comércio e Exportação (fundada
em 1967), o capital integralizado é de R$ 1,1
milhão, ou seja, a família jogou praticamente
todo seu capital na empreitada. O pai do prefeito é
o maior acionista, com R$ 541 mil. Os filhos (Wellington
e Marcelo) participam com a outra metade. As duas filhas
(Ana e Jaqueline) entram apenas com R$ 27 mil cada uma.
Assim que soube que A TARDE iria publicar a reportagem
denunciando a irregularidade, o prefeito foi à
Junta Comercial e retirou seu nome da sociedade. “Ele
só o fez às vésperas de serem divulgadas
as notícias no jornal A TARDE”, constatou
a promotora Theresa Cristina Pinto Rebouças.
Ela disse que a atitude do prefeito foi “muito
depois de já terem sido concluídas as
obras de terraplenagem no terreno”.
A ação civil também conclui que
houve apropriação de bens da prefeitura
municipal, visto que os recursos foram doados pelo governo
do Estado (Sudic), mas que ficou em conta bancária
sob responsabilidade do prefeito. Só na terraplenagem
foram gastos R$ 379 mil.
A ação civil pública foi
provocada por representação dos vereadores
Arivaldo Mota e Adalberto Neres Pinto Gordiano, após
a publicação da reportagem. Eles vieram
a Salvador e foram recebidos pelo chefe do Ministério
Público, Achiles Siquara, em audiência
que contou com a participação do deputado
Emiliano José (PT) e do diretor da TV Cultura
do Sertão, Helio Carneiro, e do presidente do
PT de Conceição Coité, Francisco
de Assis.