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Vidas pela Vida

Igrejas, MST e movimento popular celebram Carlos Lamarca como mártir e herói nacional

Dom Frei Luís, bispo da Diocese de Barra, inicia no sertão movimento para resgatar a memória de Lamarca, Zequinha, Otoniel, Santa Bárbara, Manoel Dias e Jota, como mártires da igreja e da luta de libertação do povo brasileiro

Por Oldack Miranda*

Dia 17 de setembro de 2001 fez 30 anos da morte do capitão Carlos Lamarca, o oficial exemplar do Exército Brasileiro que se rebelou contra a ditadura militar e tentou iniciar uma luta de guerrilha no Brasil. Foi derrotado e acabou cercado e executado, juntamente com muitos de seus companheiros, numa pequena localidade do sertão da Bahia chamada Pintada, município de Ipupiara, a mil quilômetros de Salvador.

Para resgatar a memória da luta e passar a limpo a história, o bispo dom Frei Luis, da Diocese de Barra, cidade plantada às margens do Rio São Francisco, no Oeste da Bahia, idealizou e organizou um ato ecumênico chamado “Vidas pela Vida – Celebração dos Mártires da Diocese de Barra – 30 anos da morte de Lamarca” e convidou pastores protestantes, e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) , com patrocínio de ONGs diversas, como a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE), o Centro de Assessoria do Assuruá (CAA), o Grupo Tortura Nunca Mais (RJ), a Cooperativa Agromineral Sem Fronteiras (CASEF) e ainda com apoio da Prefeitura Municipal de Ipupiara.

A celebração ecumênica na caatinga, inimaginável em outros tempos, ocorreu no dia 29 de setembro de 2001. Passados 30 anos, os mais velhos ainda têm medo de comentar o acontecido. É que, em 1971, quando a presença de Lamarca foi detectada no sertão baiano, as forças militares, no auge da ditadura, praticaram a estratégia do terror contra a população local, com o objetivo de isolar os guerrilheiros. Prenderam, ameaçaram, bateram e mataram com uma violência nunca vista antes naquelas paragens.

O texto do informativo, com formato lembrando literatura de cordel e distribuído pelos organizadores, não deixa dúvidas: “A causa é que faz o mártir, escreveu Santo Agostinho. Sem dúvida alguma, quem foi morto defendendo a causa da justiça, da democracia e da reforma agrária é um mártir. Mesmo que sua militância não seja dentro da Igreja ou religião. Queremos celebrar a vida e a morte de nossos mártires, como um reconhecimento de seu exemplo e como compromisso com a causa pela qual derramaram o seu sangue”.

MÁRTIRES DA IGREJA

De cima da carroceria de um caminhão o bispo da Diocese de Barra, dom Frei Luis, o Pastor João Dias de Araújo, da Igreja Presbiteriana de Feira de Santana e o Pastor Djalma Torres, da Igreja Batista Nazareth, de Salvador, iniciaram, às 9h da manhã, o culto ecumênico com o anunciado propósito de “resgatar a memória dos mártires da Diocese de Barra”. Irmã Marina leu a trecho da Bíblia em João, capítulo 15, versículos de 12 a 17 que diz “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos que ama”. O cântico logo em seguida repetia que “prova de amor maior não há”.

Durante a celebração, homens e mulheres ofertaram um pouco de terra do lugar onde Lamarca tombou, outros ofertaram beiju, frutas, hortaliças, que simbolizavam alimentos que os heróis deveriam receber em vida, os militantes do MST ofertaram a bandeira vermelha dos sem-terra, outros a Bandeira do Brasil, a Constituição Brasileira e flores, o ex-preso político e representante do PT baiano, vereador de Salvador, Emiliano José, ofertou um exemplar do seu livro “Lamarca, O Capitão da Guerrilha”, escrito em parceria com o jornalista Oldack Miranda.

Os mártires da Diocese de Barra que derramaram o sangue são: Carlos Lamarca, apresentado como “um herói nacional à altura de Zumbi e Tiradentes, embora ainda não reconhecido pela historiografia oficial”; José Campos Barreto (Zequinha), que morreu no sertão junto com o capitão Lamarca; seu irmão Otoniel Campos Barreto, fuzilado pela repressão quando tentava a fuga; Luíz Antônio Santa Bárbara que oficialmente se suicidou para não ser preso. E ainda dois militantes da luta pela terra na região:  Manoel Dias, assassinado aos 77 anos de idade, em 1982, pelo grileiro Leão Diniz e 30 pistoleiros no lugarejo de Boa Vista do Procópio, e  Josael de Lima, mais conhecido como Jota, membro da Comissão Pastoral da Terra, morto com um tiro no peito a mando do mesmo Leão Diniz em 1986, aos 55 anos de idade.

MOMENTOS DE EMOÇÃO

Foram momentos de grande emoção. D. Josefa Elze de Jesus, ou simplesmente D. Zefa, viúva de Jota, leu uma carta guardada ao longo dos anos, lembrando da atuação do mártir camponês, recebida logo após seu assassinato. Pálido, Emiliano José reconhecia seu próprio texto na carta enviada à época, em solidariedade à família. O ator Paulo Betti, que representou o capitão da guerrilha  no filme “Lamarca”, de Sérgio Rezende, enviou uma mensagem lida por João Pedro Stédile. Um poema enviado por D. Pedro Casaldáliga, foi lido por Irmã Marina. Osvaldo Dias falou sobre a luta do irmão assassinado, Manoel Dias, e da impunidade que se seguiu, e uma carta de Maria Pavan, viúva de Carlos Lamarca, justificando a ausência dela e dos filhos César e Cláudia, foi lida por César Benjamin.

Olderico Campos Barreto, que enfrentou a repressão a tiros naquela época, deu seu testemunho e falou das mutilações sofridas pelos irmãos mortos, de como seu velho pai foi dependurado de cabeça para baixo, de como o terror tomou conta do povo. E não se  esqueceu de Iara Iavelberg, a companheira de amor e luta armada de Lamarca, que tombou num apartamento no bairro da Pituba, em Salvador, poucos dias antes do sangrento desfecho no sertão. Lá estavam a mãe de Luíz Antônio Santa Bárbara, D. Maria Santa Bárbara e seu outro filho Luíz Santa Bárbara, que leu uma mensagem sobre o irmão, ex-líder estudantil em Feira de Santana, que optou pela luta armada com o sacrifício da própria vida. Lá estava César Benjamin, que participou do movimento de Lamarca e explicou, do altar, as razões da guerrilha  contra a ditadura militar de 1964.

Caravanas vieram das onze paróquias da Diocese de Barra, principalmente de Irecê, Ibotirama, Gentio do Ouro, Barra do Mendes, Brotas de Macaúbas e Ipupiara, mas também de Feira de Santana, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Chegaram como romeiros e se hospedaram precariamente em improvisados alojamentos. A comitiva do MST se hospedou no Salão Paroquial de Brotas de Macaúbas, cidade que centralizou a repressão na época, distante 20 quilômetros da pequena Pintada. Outra parte se hospedou no Salão Paroquial de Ipupiara, com apoio da Prefeitura Municipal, outros se hospedaram no Centro de Formação Santo Afonso, em Brotas de Macaúbas. Emocionados e hospitaleiros moradores ofereceram almoço aos visitantes.

A PALAVRA DAS IGREJAS

No sermão, o Bispo da Diocese de Barra, dom frei Luis, esclareceu os motivos da celebração:

 - “Irmãos e irmãs, neste momento, a Diocese da Barra abre solenemente a celebração “Vidas pela Vida”. Quando idealizamos esta celebração, tínhamos em mente três grandes motivos.

Em primeiro lugar,  pedir humildemente perdão a Deus pela grande injustiça que cometemos tirando a vida de homens que lutavam pela Justiça. O sangue de nossos heróis deve ser lavado. Nosso primeiro grande motivo é  penitencial.

O segundo grande motivo é de ação de graças. Queremos agradecer a Deus por nos ter dado a graça de conhecermos pessoas tão grandes, tão importantes, que nos deram um exemplo maravilhoso de terem tido a coragem de derramar seu sangue, doarem sua vida, para a construção de um mundo mais humano, mais fraterno, mais justo, mais solidário. Oremos em ação de graças a Deus,  pelas vidas dessas pessoas que no dia de hoje lembramos com tanta reverência.

E o terceiro motivo que nos une é aprender com eles uma grande lição de vida e tomarmos consciência de que só construiremos o futuro se resgatarmos o nosso passado. Os mártires são pedras vivas da construção da Igreja, da construção do mundo, são eles as pedras angulares do novo tempo. E somente no resgate do passado, somente no passar a limpo o passado, teremos condições de construir melhor, com mais consciência, dignidade e espírito cidadão, o futuro. É isso que nos une, meus irmãos e minhas irmãs, e é para isso que aqui estamos, celebrar homens que doaram suas vidas para que a vida seja vivida com mais plenitude e dignidade. Está aberta pois, irmãos e irmãs, a celebração “Vidas pela Vida”.

Coube ao pastor Djalma Torres a leitura da Bíblia. “Mas quero antes expressar o sentimento que tenho guardado profundamente no coração, desde o momento em que fui convidado para esta celebração. Quero agradecer essa honra e esse privilégio e o faço com sinceridade muita grande. Quero  também parabenizar a Diocese da Barra, na pessoa do bispo dom Frei Luis, pela coragem e pelo desafio que nos apresenta, a todos nós, católicos e protestantes, no sentido de que nos juntemos todos em ato de celebração, de clamor, de uma convocação a todo o povo de Deus, para que neste país se estabeleça o império da justiça, não sob a égide de autoridades ou mãos humanas, mas sobre a inspiração e a proteção de Deus, que é o Senhor da Vida, que é o Senhor de todos nós. É pois, com emoção, que convido a todos para refletirmos sobre o texto anunciado que expressa as palavras da salvação: “O meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei, ninguém tem amor maior do que este, de dar a alguém a própria vida em favor de seus amigos”.

O pastor João Dias de Araújo, da Igreja Presbiteriana Unida seguiu o mesmo tom: “estamos alegres, porque estamos reunidos aqui para celebrar a vitória do Nosso Senhor Jesus Cristo, expressa na vida dos mártires dessa terra, aqueles que morreram, tombaram na luta em favor de dias melhores para todo o povo brasileiro. O sangue dos mártires é a sementeira da história. De fato, os mártires estão semeando a terra em que a História está sendo construída com semente de sangue. Estes nosso irmãos que tombaram nesta terra seguiram o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu sua vida em favor de todos nós”. E exortou a todos “a seguir o exemplo de Jesus Cristo e dos mártires para prosseguirmos na luta pela libertação de todo o povo”.

LAMARCA VIVE

Terminada a celebração, com velas acesas, muitas orações, cânticos e palmas, em penitência, um camponês carregou aos ombros uma enorme pedra, a mesma em que o capitão Carlos Lamarca pousou a cabeça antes da morte, percorrendo a estrada quente até a sombra de uma ressequida e imensa baraúna, o exato lugar da execução do líder guerrilheiro. Em pequenos grupos, seguiram depois até o local em que  José Campos Barreto morreu, poucos metros adiante, dentro da cerrada caatinga, onde foi erguida uma cruz de cinco metros de altura. O clima foi de muita espiritualidade e comoção popular.

 Diante da cruz, os novos romeiros disputavam espaço para fotos com os padres e pastores evangélicos. Um compenetrado e anônimo visitante recolheu num saquinho de papel um punhado daquela terra, um dia regada a sangue. Jovens rapazes e moças distribuíam beiju em grandes cestos. Os militantes do MST repetiam de punho fechado: “Che Guevara não morreu, Che Guevara vive, Lamarca não morreu, Lamarca vive”. E o povo cantava o refrão “prova de amor maior não há, do que doar a vida pelo irmão”

            O sol abrasador já começava a se deitar quando os romeiros retomavam o caminho para Brotas de Macaúbas, onde João Pedro Stédile, dirigente do MST, e César Benjamin, este um ex-companheiro de luta de Lamarca e hoje dirigente da ONG Consulta Popular, promoveram um seminário com aceso debate sobre a luta pela terra. À noite, uma parte se deslocou para a sede municipal de Ipupiara, onde houve o lançamento da 15ª edição, revista e ampliada, do livro “Lamarca, O Capitão da Guerrilha”, com a presença dos autores.  Outros foram ao Clube Balneário de Brotas assistir uma peça teatral intitulada “Amigos na vida, amigos na morte”, baseada na relação de companheirismo entre Lamarca e Zequinha.

            Dia seguinte, domingo (30/09/2001), centenas de romeiros liderados pelo MST se deslocaram bem cedo para o povoado do Buriti Cristalino, em cujas cercanias Lamarca e Zequinha armaram acampamento, que teve a totalidade de sua população presa pelos militares e onde morreram Otoniel Campos Barreto e Luíz Antônio Santa Bárbara. Nesse dia, Olderico Campos Barreto, o militante que  sobreviveu ao tiroteio, com a face varada por uma bala, à tortura e a anos de prisão, voltou a servir de guia e cicerone, como há 30 anos. No caminho, o MST repetia o novo slogan: “Che Guevara não morreu, Che Guevara vive, Lamarca não morreu, Lamarca vive”. 

*Oldack Miranda é jornalista e co-autor, ao lado de Emiliano José, do livro "Lamarca, o capitão da guerrilha"

Veja também
  Resenha
"Lamarca: entre a ficção e a realidade"

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Cinema

Veja página especial sobre o filme "Lamarca", de Sérgio Resende
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Memória
Igrejas, MST e movimento popular celebram Carlos Lamarca como mártir e herói nacional
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História
Mortos na caçada ao capitão Lamarca
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Crônica

"Buriti Cristalino", por Isadora Browne
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Herói
Culto ecumênico celebra Lamarca como mártir nacional
 
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   

 

 
 
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