Terça-feira, 04 de dezembro de 2001 - 18h32

Se estivesse vivo, o líder comunista Carlos Marighella completaria 90 anos no dia 5 de dezembro. Morto durante o regime militar, a história encarrega-se, aos poucos, de desmistificar a imagem daquele que já foi considerado o "inimigo público número 1". Por Vinícius Pinheiro

Fotos: Acervo Iconografia, Arquivo Nacional e Arquivos do Estado de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.


4 de novembro de 1969, passava um pouco das oito da noite:





Marighela, dentro de um fusca (à direita) tinha um encontro marcado com freis dominicanos à altura do número 806 da Alameda Casa Branca. Mas o delegado Fleury o esperava lá. Foi morto com quatro tiros.

Marighela figurava nos cartazes dos oito terroristas mais procurados, sob o título de “assassinos”.

Quatro de novembro de 1969, São Paulo. Em uma operação que envolveu um total de 29 homens, a equipe do DOPS chefiada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury mataria Carlos Marighella, o líder comunista mais procurado do Brasil, em uma emboscada na Alameda Casa Branca. As ordens eram claras: Marighella não deveria ser preso. Na disputa pelo mérito de ter eliminado o fundador e comandante da Ação Libertadora Nacional (ALN), uma investigadora foi morta e um delegado foi ferido.

Se estivesse vivo, Carlos Marighella completaria 90 anos no dia 5 de dezembro. Desde a volta do exílio em Cuba, em 1979, Clara Charf, viúva do líder comunista, empenha-se em resgatar a memória e desconstruir a imagem do "inimigo público número 1" criada em torno da figura de Marighella. "Ele acreditava que nada poderia ser transformado sem luta e é isso que estamos fazendo. Mesmo quem discordava dos métodos utilizados por ele reconhece a sua coerência e coragem durante toda a vida", diz.

Na opinião de Clara, a realidade atual poderia ser outra se Marighella não tivesse sido assassinado em 1969. "Ele utilizou todas as formas de luta de acordo com cada situação que enfrentou e nos dias de hoje não seria diferente." Durante os 58 anos de vida, passou por todas as experiências pelas quais um revolucionário poderia viver e, afirma, jamais cruzaria os braços.

Para o cientista político Alcindo Gonçalves, a opção da luta armada contra o regime militar seguida por Marighella e pelas dissidências do Partido Comunista não foi acertada. "Todas as experiências duraram pouco tempo e não tiveram apoio popular expressivo", disse. A ditadura começou a ceder, segundo ele, quando formou-se um amplo arco de forças políticas contra o sistema, o que revelou ser o melhor caminho. "Apesar disso, a importância dele no processo de defesa das causas populares é única, não apenas durante a ditadura como em toda a vida, e sua imagem precisa ser lembrada por isso."

Segundo Vladimir Sacchetta, um dos autores da fotobiografia "A Imagem e o Gesto" (Editora Fundação Perceu Abramo), se estivesse vivo Marighella certamente continuaria militando na esquerda e apoiando movimentos sociais, como o MST. É importante, segundo Sacchetta, diferenciar a luta armada da época do regime militar do terrorismo atual. "Marighella seria terminantemente contra os atentados ao World Trade Center e terroristas como Bin Laden", afirma.

Filho mais velho de uma família humilde – seu pai era imigrante italiano e sua mãe descendente de escravos africanos – Marighella, nasceu num sobrado da Baixa do Sapateiro, em Salvador. Dos tempos de escola, ficou conhecido pelos constantes questionamentos e por uma prova de física respondida em versos. O poema/prova nota 10 ficou exposto em um mural como exemplo de imaginação criadora.

Ingressou no Partido Comunista no início dos anos 30, via juventude comunista. Em 1932 seria preso pela primeira vez, nas manifestações dos estudantes baianos em apoio ao movimento constitucionalista. Quatro anos depois, já no Rio de Janeiro, onde militava pelo PCB, seria preso novamente e duramente torturado.


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