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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA
Parte I - POR UM ESTADO DEMOCRÁTICO

A República de GOG

O Padre Restrepo não era dado a modernidades. Contra elas tinha como arma poderosa seu dedo indicador, sempre pronto a apontar os pecadores e ainda “uma língua treinada para agitar os sentimentos”. Conseguia ver pecado e perigo contra o Cristianismo em tudo, até na irrequieta Clara, que da planície de seus dez anos de idade resolveu desafiar o gigante no púlpito, acenando com dúvidas sobre as histórias do inferno contadas por ele. O indicador levantado ficou algum tempo paralisado, até que a mente o socorresse e permitisse disparar a sentença contra a perigosa Clara:
- Endemoniada! Soberba! Endemoniada!

O episódio e os personagens fazem parte do belo A Casa dos Espíritos, romance de Isabel Allende, e me vieram à mente em razão das últimas perorações contra o “golpe das esquerdas”, que já estaria a caminho, e célere. Alguns representantes da burguesia e eventuais e solícitos acólitos vêem-se transfigurados em vários padres restrepos ante a endemoniada visão oferecida pela vitória do PT em algumas grandes capitais brasileiras. Aliás, partido que também tem dez anos de existência e é tão “irrequieto” quanto Clara.

Não fossem as claras intenções políticas de tais declarações, notadamente as últimas do presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia, Orlando Moscozo, e poderíamos dizer que esse país está tomado por uma febre de irracionalismo. Há eleições alicerçadas nas normas burguesas ou até mais tímidas do que as propostas e executadas pela burguesia em países mais desenvolvidos. E ao invés de serem saudadas como um triunfo da normalidade democrática, ecoa o grito apocalíptico: “o golpe das esquerdas está em marcha”.

Como o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Mário Amato, há algum tempo sentiu-se no direito de lembrar Bakunin, pai do anarquismo, cuido agora de voltar a Marx, para dizer que um espectro ronda o Brasil: o da democracia. Quando se desenha a possibilidade de se consolidar a democracia, a direita mais conservadora sente-se mais ameaçada e, tal qual o Padre Restrepo, ocupa o púlpito para atacar esses endemoniados que se atrevem a vencer as eleições em São Paulo, Porto Alegre e Vitória.

O empresariado, ao invés de tocar a corneta chamando de volta os militares, deveria perguntar-se sobre o destino do Brasil neste momento tão difícil. De plano, poderia concluir que a democracia, mesmo do seu ponto de vista, é o único meio para assegurar a continuidade do desenvolvimento capitalista no Brasil. A revolução socialista não está à vista e a América Latina, por outro lado, tem repudiado as ditaduras militares nos últimos anos.

Ainda bem que, mesmo na Bahia, os setores mais avançados do capital, sobretudo os representantes do Pólo Petroquímico, já se manifestaram em sentido inverso ao do presidente Orlando Moscozo. Em São Paulo, os empresários estão convivendo pacificamente com a idéia de ter prefeita marxista. A democracia, sabem-no todos, implica uma luta pela hegemonia na sociedade. Essas eleições deixaram claro que já se foi o tempo do bipartidarismo e que projetos diferentes daqueles da burguesia passam efetivamente a disputar espaço.

Cabe lembrar, já que às vezes se diz que somos um país sem memória, que oito dos maiores líderes empresariais do Brasil divulgaram em 1978 um manifesto onde propunham a implantação do regime democrático como o “único capaz de promover a plena explicitação de interesses e opiniões, dotado ao mesmo tempo de flexibilidade suficiente para absorver tensões sem transforma-las num indesejável conflito de classes”. Vê-se que há aí a específica visão empresarial da lurta entre as classes, mas é inegável a preferência da burguesia pela democracia. Entre os signatários estavam Cláudio Bardella, José Midlim, Antônio Ermírio de Moraes, Paulo Villares e Jorge Gerdau Johannpeter.

Tinham presente a história do autoritarismo no Brasil. E talvez, letrados que eram, tivessem lido um sábio trecho de “O 18 Brumário”. Eis Marx de volta: “A burguesia fez a apoteose da espada; a espada domina. Destruiu a imprensa revolucionária; sua própria imprensa foi destruída. Colocou as reuniões populares sob vigilância da polícia. Seus salões estavam sob a vigilância da polícia. Dissolveu a Guarda Nacional democrática; sua própria Guarda Nacional foi dissolvida. Impôs o estado de sítio; o estado de sítio foi-lhe imposto”.

O caminho para as transformações profundas de que necessitamos é necessariamente o da democracia. Esta pressupõe inevitavelmente uma luta de hegemonia, e para essa luta todos têm que se preparar, do proletariado à burguesia. E o voto – sempre – dirá quem a sociedade prefere ou, dito de outra forma, quem é o agrupamento hegemônico naquele momento determinado. O resto é coisa de Padre Restrepo.

É provável que os que hoje se rebelam contra o espetáculo democrático oferecido pelas eleições de novembro preferissem fazer como Gog, herói de Giovanni Papini, que um dia comprou uma república, onde “as Câmaras continuam legislando, na aparência livres, os cidadãos acreditam que a República seja livre e independente e que o andamento das coisas dependa apenas da sua vontade”. Não sabiam que tudo o que pensavam possuir dependia de Gog.

É essa provavelmente a república dos sonhos daqueles que se assustam com o voto popular.

Tribuna da Bahia – 14.12.1988

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