Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte II - O GRITO DO CAMPO

Vidas secas, sempre

A seca é um problema recorrente no Brasil. A cad ano abate-se sobre a extensa região nordestina, berço trágico de quase um terço da população brasileira. Quando a terra amanhece esturricada, o sol queimando tudo à sua volta, alteiam-se as vozes das elites, aparentemente preocupadas com a sorte do povo trabalhador, na verdade interessadas em perpetuar tal situação de modo que seus privilégios permaneçam intocados. Como intocados estão desde os séculos, dos séculos, amém.

O fenômeno é sempre tratado com entornos dramáticos, às vezes piegas. Suas causas, raramente. Discute-se sempre a falta d´água, como se fosse esta a própria causa da fome e da miséria que se abatem sobre as classes trabalhadoras e os pequenos proprietários do campo. Só ocasionalmente se discutem políticas novas que possam modificar radicalmente este quadro.

A geógrafa Inaiá Castro, do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ), depois de analisar cerca de 600 discursos de parlamentares do Nordeste no Congresso Nacional, concluiu que o peso do atraso da região foi sempre colocado em costas alheias e que a elite nordestina parece conduzir a região no sentido de que ela fique como está. É a miséria que garante à elite a continuidade dos subsídios, financiamentos especiais e perdões de dívida do Estado.

A pesquisadora do IUPERJ argumenta que, com o álibi ou a chantagem da miséria, a elite nordestina faz a sua rotineira, secular cobrança: “Toda a Nação é responsável pelo estado precário da região”. E os recursos transferidos para o Nordeste são sempre recolhidos pelos poderosos, nunca pelos que realmente deles precisam. Se eventualmente são utilizados para evitar a morte de milhares de pessoas, o são apenas como paliativo, nunca em políticas destinadas a mudar as estruturas dominantes.

A economia nordestina, nos termos do modelo capitalista posto em prática nas últimas duas décadas, tem avançado, ao contrário do que querem fazer acreditar os que aparentam chorar à época da seca. Simultaneamente, a estrutura fundiária não se alterou. O latifúndio recuperou, por exemplo, quase as proporções que tinha na década de 20. E a região concentra a maior pobreza do Brasil, evidenciada pelo fato de que é aqui que se encontra o menor percentual de carteiras assinadas, considerando-se a classe trabalhadora como um todo.

Não se trata de viabilizar políticas meramente assistenciais a cada seca. Afinal, temos que entender o fenômeno como parte de um determinismo ecológico: esta região terá que enfrenta-lo todo ano, em tese. Para tanto, precisa preparar-se estruturalmente, e não apenas à base de frentes de trabalho ou cesta básicas que não conseguem sequer minorar a fome do povo.

O que os setores explorados pedem há muito tempo é a adoção de políticas que enfrentem o problema da estrutura fundiária; que tratem a questão da água como uma necessidade das maiorias, que aproveitem os extraordinários recursos hídricos da região, voltando-os para o atendimento dos pequenos e médios produtores; que orientem e viabilizem comercialmente a produção no campo para lavouras adaptáveis ao clima e solo locais. E quem tem medo dessas políticas? As próprias elites nordestinas, e aí está a seriedade da tese de Iná Elias de Castro.

Uma vez mais, a seca assolou muitos municípios baianos, no início de 89. O Governo Democrático de Waldir Pires entendeu que não podia mais ficar apenas no trabalho emergencial, embora tivesse que fazê-lo, também, e enfrentou o drama da retaliação por parte do Governo Federal. Por isso não pôde, no limite que desejou, enfrentar o problema da seca com medidas mais estruturais, até porque está cercado pelas definições nacionais que até então, em termos constitucionais, criaram toda sorte de obstáculos à reforma agrária.

O Governo Federal mantém uma Sudene para inglês ver. A par de encontrar-se profundamente esvaziada, foi entregue aos cuidados de uma área profundamente clientelista que, no caso da Bahia, tentou passar a impressão de que estaria atendendo às áreas atingidas pela seca, quando na verdade estava apenas e tão somente satisfazendo os interesses exclusivos de seus apadrinhados.

Na área específica da perfuração de poços, destinados a minorar os efeitos da seca, os governos da época autoritária na Bahia deram exemplo de como as elites tratavam o problema. Quase 40% dos poços perfurados desde 1980 – e sobretudo entre 1983 e 1985 – estavam secos ou completamente inadequados ao uso doméstico e agrícola, pela salinização. Entre 1980 e 1985, a Companhia de Engenharia Rural da Bahia – CERB – construiu 3.152 poços, dos quais 1.192 (aproximadamente 38% do total) tornaram-se inúteis.

De acordo com a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária – Seção Bahia -,a preços de 1986, o prejuízo decorrente dos poços inutilizados era a ordem de R$ 11 milhões. Corrigidos, contribuiriam para a realização de inúmeras obras importantes para as condições de vida do povo. Houve também o caso histriônico da construção, pela CERB, de um poço na Fazenda Santa Maria da Murta, do deputado Francisco Benjamin (PFL-BA), no município de Cristinápolis, Sergipe, com recursos do programa “Pequenas Comunidades”.

São apenas modestas ilustrações de uma política anacrônica, destinada a preservar os interesses exclusivos das elites, a par de evidenciar o descaso para com o dinheiro do povo. Resta continuar a luta, nos planos nacional e local, para que ocorram mudanças tais que permitam a todos conviver com a seca como um fenômeno normal e previsível que, embora desconfortável, não comprometa a dignidade dos sertanejos.
Tribuna da Bahia – 28.03.1989

Seções

Nota do autor

Para a edição eletrônica

Para a edição impressa

Publicitário Sydney Gomes de Rezende recomenda o livro para estudantes de jornalismo

"Emiliano pertence ao grupo de jornalistas politicamente engajados"

Por um estado democrático

Parte II

O grito do campo

A participação política

O leilão das estatais

Clique na imagem para exibir a capa e a referência bibliográfica

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados