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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA
Parte III - A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

O aprendizado da greve

Diante dos revezes enfrentados por uma movimentação grevista, ocorrem reações as mais variadas. Mesmo no movimento sindical há aqueles que assumem posição semelhante à de Plekanov, que em 1905 lamentava o fato de os operários russos terem isso à luta sem, no entanto, procurar descobrir as causas da derrota nem buscar os caminhos que pudessem repor o movimento sindical e político no trilho que o levasse à vitória. Outros, pretendendo tapar o sol com a peneira, preferem manter-se numa atitude triunfalista, travestindo fracasso em sucesso.

Não há números exatos, mas a greve geral do dia 20 de agosto fracassou. É preciso dizer com toda a clareza para procurar, com determinação, as causas do insucesso. Luís Inácio da Silva, presidente do PT, afirmou antes da deflagração do movimento que havia um equívoco na convocação da greve geral, que os dirigentes sindicais não haviam percebido seu distanciamento com relação às bases e que não era vergonha recuar quando necessário.

Nem lamento, nem triunfalismo. Com todas as dificuldades, é preciso perseguir a verdade. E Lula, com sua autoridade de principal líder operário do país, tocou o dedo na ferida. E foi capaz disso provavelmente pela sensibilidade que possui, que o capacita a fazer análises mais abrangentes, que superam a visão localizada de uma fábrica para alcançar o conjunto do movimento.

Podemos buscar pistas na questão da divisão do movimento. A CUT e a CGT se uniram, mas nem tanto. Setores expressivos da classe operária ficaram de fora, principalmente no Centro-Sul. O presidente da CGT, Joaquim dos Santos Andrade, assumiu a greve, mas o mesmo não se pode dizer de Luis Antônio de Medeiros, presidente do mais poderoso sindicato metalúrgico da América Latina – o de São Paulo -, expoente hoje, do que vem sendo chamado de “sindicalismo americano”, caracterizado pelo economicismo.

Mas temos que ir fundo. Se as lideranças sindicais mais importantes da CGT e CUT estivessem unidas na disposição de fazer a greve, seria matemático dizer que ela seria geral e bem-sucedida? Não. Lula ousou elogiar Medeiros pela atitude de, antes de a greve ser deflagrada, dizer que ela não seria vitoriosa, apesar de todos sabermos das divergências entre o líder petista e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. E alertou: “Quando uma categoria não quer fazer greve, não se deve chamar seu dirigente sindical de covarde e pelego; antes disso é preciso saber se esse dirigente sindical foi honesto com sua categoria”.

Claro que Lula vai enfrentar problemas pela posição que tomou. É preço da ousadia que está pagando, de não ser refém de emoções circunstanciais do Brasil deste agosto de 1987. A proposta tinha clara conotação política, e não apenas econômica. Pretendia contrapor-se à política econômica global do governo, além de propor uma atitude diferente frente ao FMI.

Um instrumento dessa natureza e com tal conteúdo não pode ser desgastado. A greve geral não pode ser transformada numa panacéia para todos os males brasileiros e menos ainda numa espécie de fórmula única para enfrentar nossa crise política, econômica e social. É possível que alguns dos que a propuseram acalentassem o sonho de viabilizar, pelo acúmulo de greves gerais, a transformação que a sociedade brasileira reclama. Seria mais ou menos a visão que perpassou o movimento sindical espanhol, que acreditava, desde o final dos anos 50, que a greve geral derrubaria Franco. E Franco morreu ancião, no governo.

A greve não pode ser um objetivo em si mesma. Há de ser, apenas, e quando for conveniente ao movimento sindical, um instrumento de luta econômica e política dos trabalhadores. E para que a greve seja geral, de fato, ainda resta uma longa caminhada que passa por um paciente processo de luta, de mobilização e organização do sindicalismo brasileiro. De modo geral, este se encontra ainda muito distante de um nível combativo de luta, persistente, cotidiano. As razões da debilidade da organização dos assalariados podem ser encontradas tanto na estrutura corporativista da legislação sindical, quanto na nossa própria formação social autoritária e excludente.

É necessário combater as lamentações ou as formulações negativistas. Mas – e nisso reside o mérito de Lula, a quem ninguém poderá acusar de “vacilante” – tão prejudiciais quanto aquelas são as visões triunfalistas e voluntaristas, que pretendem difundir ilusões porque sempre acreditam, a priori, que basta uma atitude de vontade para que se execute o que foi decidido. A realidade é cruel, às vezes, com nossos sonhos. E mais cruel ainda é reconhecer que só baseados na realidade podemos torná-los verdadeiros.

O movimento sindical vai passar necessariamente por um saudável momento de discussão. Apesar das inevitáveis trocas de acusações que se sucedem a uma derrota, é possível tirar desse processo muitas lições que nos levam a fortalecer o sindicalismo numa perspectiva unitária e de luta. Um sindicalismo que saia perceber os momentos da luta política e os da luta econômica, que compreenda a complexidade da sociedade capitalista brasileira de hoje e assimile o fato de que a luta pela hegemonia dos trabalhadores no Brasil exige firmeza e combatividade, mas também capacidade de analisar a correlação de forças e de saber usar os instrumentos certos nos momentos adequados. Esse aprendizado todo só é possível através da luta, e aí está o mérito da greve do dia 20. Vamos continuar lutando, aprendendo também com os erros e tentando errar menos.

Tribuna da Bahia – 25.08.1987

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