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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte III - A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

Narciso no fundo das galés

Andava a pé naquela manhã levemente friorenta de 5 de novembro de 1969, quando no final da Avenida Paulista em São Paulo me deparei com a manchete: Marighella está morto. Estávamos mais sós, todos os que lutávamos pelo fim da ditadura. Apesar dos equívocos, o líder revolucionário era um símbolo da resistência. A foto com os olhos fechados e o sangue escorrendo pela face serena nos abatia, nos fazia sofrer profundamente. As balas assassinas que o mataram resvalaram em nós, a derrota do autoritarismo chegaria um dia. Não havia desânimo, só tristeza.

Derrotamos a ditadura, demos um importante passo em direção à democracia. Estamos concluindo uma Constituição que, apesar dos pesares, será um avanço formal, significativo em relação a todas as constituições anteriores. Há um clima de liberdade política no País e apesar disso o Brasil de hoje não tem esperança. Um profundo sentimento negativista perpassa a sociedade inteira. Ganha corpo uma perigosa aversão à política e aos políticos. Essa desesperança com relação ao futuro tem se traduzido, entre outras coisas, nessa quase diáspora que tem levado tantos brasileiros para o exterior. Por que?

Talvez tivéssemos muito mais razão para baixar as armas, desacreditar de tudo, desesperançarmo-nos completamente, quando o clima era aquele de 1969 – o império absoluto de ilegalidade, repressão, tortura, assassinatos políticos e tudo mais que se pode esperar de uma ditadura. No entanto, o povo brasileiro foi pouco a pouco tecendo o fio que levou à derrota do autoritarismo. Certamente, alimentava a esperança de que, com o fim do arbítrio, uma nação nova e feliz surgiria para todos. Tancredo Neves era a síntese dessa expectativa – sem medo do termo, era o Messias esperado pelas populações marginalizadas da sociedade brasileira.

Tancredo se foi antes que pudesse provar que honraria seus compromissos. Foi quase santo, mártir de um povo até então enlouquecido de esperança. Quem hoje estiver envolvido com a atividade política destinada a contribuir para o crescimento da força dos explorados não pode subestimar a análise desse quadro. A apatia, a descrença, a desilusão com a política e os políticos é sintoma de doença e caldo de cultura para os mais variados tipos de autoritarismo. As eventuais movimentações corporativistas, destituídas de uma visão global do país, não devem nos iludir nem nos levar à visão triunfalista de que o “movimento de massas está crescendo e caminha para a vitória final”.

No dia 24 de maio deste ano (1988), o Jornal do Brasil publicava matéria sob o título “Tóxico da Rocinha tem triunvirato que promete paz”. Buzunga, Cassiano e Naldo, posando abertamente com três metralhadoras Uzi e uma pistola HK 9 milímetros, no entanto, causavam medo aos moradores, que sabiam que eles interfeririam ao lado de uma das chapas que iriam disputar a União Pró-Melhoramentos da Rocinha, a ser usada depois como braço desarmado do tráfico. Cassiano, bem falante, chegou a dizer que “a revolução social no Brasil vai começar nos morros”. E a possibilidade de que uma revolução algum dia possa ser conduzida pela marginalidade é igual a zero.

Mais do que isso, a presença de “lideranças” dessa natureza nos morros do Rio de Janeiro, hoje disseminada, é indicativo de que ainda temos muito que caminhar para sermos uma sociedade civil forte, articulada, capaz de influir decisivamente no processo de construção da democracia. É claro que, ao tratar de um problema de tal amplitude, estou me arriscando a generalizar e simplificar, sobretudo considerando-se a complexidade de nossa formação social. Mas é preciso falar disso, nem que seja como provocação.

O jornalista José Castello, do Jornal do Brasil, comentava recentemente o artigo do psicanalista Jurandir Freire Costa denominado Narcisismo em tempos sombrios, dizendo que quatro atributos compõem hoje o perfil da cultura brasileira: o cinismo, a delinqüência, a violência e o narcisismo. Freire Costa afirma que não apenas os marginais organizados em falanges se deixam dirigir pelo que ele denomina razão cínica: “Existe um elo indissolúvel entre o político que lesão erário público, o cidadão que ultrapassa o sinal vermelho e o assaltante que mata”. O indivíduo que estaciona em fila tripla para esperar o filho diante do colégio age “com a mesma arrogância deliquente do marginal que fuzila o caixa de um banco”, diz Castello. Tudo isso é conseqüência dessa razão cínica. Em lugar da sagrada indignação, da revolta organizada, da rebeldia com causa, “produziu-se um discurso desmoralizante que diz que toda lei é convencionalismo, formalismo, idealismo, conservadorismo” diz Castello, citando Freire Costa.

Essa cultura da delinqüência carrega em si a ilusão de que todos podem escapar da dissolução social. E o descarte da ,lei inclui um ataque à política, como se os políticos no final das contas agissem por razões inconfessáveis. “No Brasil você começa a ter uma devalorização da política em favor de uma cultura marginal, de delinqüência e dos interesses particulares de cada um”, diz Costa. A proteção do espaço individual passa a ter prioridade sobre o convívio social – esta é a grande conclusão acerca de uma sociedade afetada pelo narcisismo e pelo espírito de delinqüência.

No plano político, isso pode levar, como tem levado, ao imobilismo. Por que as multidões não foram agora às ruas pelas diretas? Por que não conseguimos mobilizar milhares de pessoas no campo para se contrapor à milionária presença da UDR na Constituinte? Por que chegamos a este ponto, por que acumulamos tanto desalento, por que tiramos o povo das praças, por que as ruas pararam de gritar, por que chegamos a essa situação aparente de beco sem saída? Tudo isso tem história, não surgiu como um raio em dia de céu claro e azul.

A marginalização das classes subalternas em nossa história é parte da tradição brasileira. O bloco dominante, mesmo no momento em que os de baixo se movimentaram, sempre logrou controlar a situação e, mesmo quando mudanças ocorreram, garantir a manutenção de privilégios essenciais.

A luta contra a ditadura, de mais de duas décadas, alimentou no povo sólidas esperanças. A morte de Tancredo e a assunção de Sarney. No entanto, nos levaram por caminhos muito diversos e a Nova República esteve muito longe de cumprir o que prometera. Ao paraíso fugaz do Cruzado I, seguiu-se o inferno das políticas posteriores.

Passada a ditadura, não se erigiram grandes idéias-força que pudessem mobilizar o povo. Os partidos políticos continuam sua tradição de fragilidade. O mais forte deles, o PMDB, viu-se enredado em suas contradições internas e não pode até agora oferecer respostas amplas aos desejos difusos de mudança da maioria de nossa gente. E os humilhados e ofendidos, ao invés de transformarem sua ira em força organizada, recolheram-na ao campo privado, ás manifestações individuais de repulsa à política, como se não fosse a única saída possível para enfrentar a crise, inclusive a individual.

Mesmo no meio do povo, numa despolitizada reação à falta de alternativas, é muito comum ouvir-se: “Só voto em quem me der alguma coisa”. Não há indagações sobre programas, idéias, respostas globais para o país. O cidadão está imerso no seu mundo privado – descarta a política, descarta a comunidade: “É dando que se recebe”. Quem tiver compromissos com o futuro do país, quem for contra a barbárie, quem estiver do lado da democracia, do socialismo, das idéias progressistas tem que remar contra essa maré. E será preciso um esforço gigantesco para detê-la. As eleições são um passo, mas não podem ser o único.

Cada vez mais, as classes subalternas terão de compreender que a superação do sofrimento a que estão submetidas está vinculada necessariamente ao mergulho delas mesmas na atividade política – organizando-se em partidos políticos que defendem seus interesses, construindo-os; fortalecendo as organizações comunitárias e os sindicatos, livrando-os do corporativismo estreito; fazendo com que a revolta individual transforme-se em grito coletivo e que o cidadão ressurja das cinzas. Para que isso ocorra é necessário que, num esforço comum dos setores progressistas, consigamos elaborar idéias que dêem esperança ao País.

O socialismo no Brasil, uma das possibilidades do nosso futuro, não virá como dádiva nem acontecerá como resultado de uma lógica inexorável, fruto de um determinismo religioso que leitores apressados de manuais marxistas acostumaram-se a difundir. Só será possível, num horizonte distante, se tivermos a noção da importância estratégica da democracia, importante hoje, amanhã, sempre. Só a mudança profunda das relações políticas – implicando uma participação cada vez mais decisiva dos de baixo na vida brasileira – poderá devolver a esperança aos marginalizados.

Viktor Lrovitch Kibaltchitch, o revolucionário Victor Serge, falando em suas memórias do ambiente que prevalecia entre os anarquistas no início do século, em Paris, lembrava uma das máximas que recitavam: “Sejamos marginais, não há lugar para nós senão à margem da sociedade”. Não percebiam, conforme o próprio Serge, que a “sociedade não tem margem, que sempre se está nela, mesmo no fundo das galés, e que seu “egoísmo consciente” se unia por baixo, entre os vencidos, ao mais feroz individualismo burguês”. Narciso não vai à luta. Contempla-se, solitário. Até morrer.

Tribuna da Bahia – 08.06.1988

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