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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte III - A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

Tempo nublado

Há momentos em que a palavra é insuficiente para expressar nossa indignação. Vivemos um deles. Olhamos em torno e vemos a miséria sofrendo as conseqüências das chuvas, contabilizadas nas terríveis cifras de dezenas de mortos. Estranho país, este nosso. Quando começa a chover, dissemina-se o medo. Milhares de pessoas se debatem no dilema entre permanecer em suas precárias moradias ou sair para o relento. Às vezes, muitas vezes, a primeira escolha pode significar a morte.

As análises superficiais falam no caos urbano, como se este caos não fosse o produto direto de uma política determinada, de um específico modo de produção e de uma formação social tão excludente. As visões apressadas (mas marcadamente ideologizadas) pretendem que essas aglomerações desordenadas em que se transformaram as cidades brasileiras – ou boa parte delas – sejam resultado do acaso ou da inconsciência das massas populares.

Por que será que tudo isso acontece? A natureza já deixou claro, há anos, que Salvador não agüenta chuvas e que são necessárias obras de contenção de encostas e tantas outras medidas estruturais essenciais para que as populações pobres não fiquem sujeitas a tais tragédias. E na primeira estiagem, no pós-tragédia, há promessas e mais promessas, inclusive de medidas amplas que tornem a cidade mais apta a enfrentar o fenômeno natural.

Às vezes, nossas classes dominantes lamentam o fato de as camadas populares virem em massa para as grandes cidades e criticam o padrão de construção de suas casas – tão pouco consistentes, desalinhadas, erguidas com material tão precário, sem condições de resistir às intempéries...Bem que podiam ficar no interior, onde pelo menos tinham o que comer. Tinham? E por que vêm? Por que acontece tudo isto? E como pode deixar de acontecer?

Essas dezenas de mortes em Salvador são a ponta do iceberg, de um problema muito mais amplo. Ou o Brasil modifica em alguma profundidade o modelo econômico adotado há mais de duas décadas ou tais tragédias tendem a se ampliar consideravelmente. O povo trabalhador procura as grandes cidades porque não lhes resta outra alternativa.

Claro que se pode falar na força da atração que as cidades exercem sobre os camponeses, mas há o fato essencial – e mais forte – de que o país, pelo profundo reacionarismo de suas elites, até agora recusa-se a promover a Reforma Agrária que viabilize a permanência do homem no campo. Manda a lógica do capital, ainda, que se mantenha nos grandes centros urbanos um poderoso exército industrial de reserva, acionado de acordo com os interesses dos empresários e que empurra os salários para baixo.

Isso tudo leva a que nas grandes cidades tome forma, inevitavelmente, um gigantesco apartheid. Aceleradamente às vezes, a passo mais lento em outras ocasiões, as massas vão sendo empurradas para a periferia, nas condições que se conhece. Tudo o que se produziu no Brasil sobre planejamento urbano – e quanta coisa boa – se perdeu em filosofia, no sentido de que não se transformou coisa alguma, servindo no máximo de referência para o que se possa vir a fazer no futuro, se as condições políticas do país se modificarem radicalmente.

O que falta essencialmente, no caso das cidades brasileiras, sobretudo nas maiores, é uma vontade política que se oriente no sentido de resolver o drama das maiorias, a angústia dos miseráveis. Não adianta fingir lágrimas a cada tragédia. É preciso dizer claramente que até agora nada de substancial foi feito e que, ao contrário, o modelo concentrador de renda implacavelmente posto em prática nas últimas décadas implica um agravamento considerável das precárias condições de vida dos deserdados.

O BNH, todos sabem, é uma balela desde sua fundação. Não há política habitacional voltada para as camadas populares. E como fazer política habitacional se os salários são o que são e se por parte dos diversos governos, mesmo o da Nova República, nunca houve qualquer prioridade para o investimento social? O que me impressiona é a paciência do nosso povo, sua natureza pacífica, esse espírito estóico que lhe possibilita sobreviver, apesar de tudo.

Insisto que é preciso indignar-se, organizar a indignação. É preciso alicerçar uma consciência política profunda em nosso povo, de modo que ele reaja às políticas que vêm sendo postas em prática. E que vote com essa compreensão nas próximas eleições. Que não acredite em Messias, que compreenda que a única possibilidade de o Brasil se modificar é dada pela sua própria participação. Se isto não se operacionaliza, corremos o risco de acinzentar cada vez mais os horizontes. Mesmo que aparentemente se queira dar um colorido novo à República.
Tribuna da Bahia – 23.05.1989

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