Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte III - A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

O corporativismo em cartaz

A mobilização operária que paralisou as grandes montadoras em maio de 1978 foi a senha de abertura de novo momento do movimento sindical brasileiro. Despontava um sindicalismo vigoroso, combativo, em trânsito para a superação das marcas populistas vigentes nas décadas anteriores, especialmente no período pré-64. Colhiam-se os resultados de um Brasil industrializado e urbanizado, traços que se acentuaram durante o regime militar.

Esse novo sindicalismo, no entanto, enfrenta sérias dificuldades. Entre elas, pode-se destacar o decréscimo das greves operárias sobre o total de paralisações enquanto crescem as movimentações paredistas do funcionalismo público. E aqui, mais do que entre os trabalhadores fabris, manifestam-se fenômenos como os do corporativismo, marca que acompanha o sindicalismo brasileiro desde os anos 30.

No caso do funcionalismo, o espírito corporativista assume proporções significativas. As corporações falam mais alto e se fecham em suas exclusivas reivindicações, incapazes de politizar as lutas, deixando as bandeiras políticas no campo vago do doutrinarismo. É deste equívoco e das mazelas a eles associadas que pretendo tratar neste artigo, a partir de um fato muito singular.

A divulgação de um cartaz com os nomes dos deputados que teriam votado contra o projeto que sustava as demissões promovidas pelo Governo do Estado, de autoria do deputado Alcides Modesto (PT), intitulado “Os traidores do funcionalismo”, suscitou ampla discussão na Assembléia Legislativa da Bahia, sobretudo pelo fato de conter os nomes da deputada Amabília Almeida, do deputado Carlos Alberto Simões e o meu próprio. A mentira foi desmascarada pelo PT, PcdoB, PDT e vários outros parlamentares e partidos – afinal, eu e o deputado Carlos Alberto Simões votamos a favor do projeto e a deputada Amabília Almeida só não o fez porque encontrava-se hospitalizada no dia da votação.

Gramsci costumava dizer que aos revolucionários só interessa a verdade. A mentira sempre foi arma do fascismo, que ao divulgá-la e repeti-la tenta inutilmente transforma-la em verdade. O próprio PT, a quem se pretendia responsabilizar pela autoria do cartaz, solidarizou-se pela voz do deputado Alcides Modesto com os parlamentares, esclarecendo que havia se esforçado muito no sentido de que o cartaz não contivesse os nomes dos três deputados. Não foi menor a luta do PcdoB no interior da Coordenação Pré-Sindical do Movimento dos Servidores, no mesmo sentido.

O cartaz, como se tornou óbvio na fala de diversos parlamentares, é equivocado pela própria natureza, independentemente de mentir quanto à atuação dos três parlamentares. Evidencia a exacerbação do corporativismo. Que direito tem uma corporação de tutelar um mandato conferido pelas urnas? Que poderes foram conferidos a uma corporação – na verdade, uma sua parcela – para excomungar deputados a partir de um único voto?

Quando discutia a orientação para o movimento operário na Rússia, Lênin constatava que a “luta econômica conduz os operários a pensarem unicamente nas questões concernentes à atitude do governo para com sua classe. Por isso, por mais que nos esforcemos por imprimir à própria luta econômica um caráter político não poderemos jamais em tal marco, desenvolver a consciência política dos operários”. A parcela da Coordenação Pré-Sindical que imaginou o cartaz – forma e conteúdo – seguramente comunga dessa visão tão criticada por Lênin. Esse procedimento certamente “anistiou” muitos parlamentares de história marcada por compromissos com o arrocho salarial e a ditadura, quando foram divulgados como “traidores” apenas aqueles que votaram contra o projeto que sustava as demissões. Auto-transformada em Santa Inquisição,aquela parcela da Coordenação Pré-Sindical, ao ditar sentenças irrecorríveis sobre parlamentares, pretendeu objetivamente estreitar ainda mais a base de apoio político ao movimento dos servidores que pretende dirigir.

O corporativismo é impotente para, como diria Marx, levar em conta o interesse do movimento na sua totalidade. Neste caso, deixou de perguntar-se sobre a possibilidade de vários daqueles que votaram contra o projeto se manifestarem favoravelmente aos trabalhadores em outras ocasiões, como agora na Constituinte. Ao mesmo tempo, não se perguntou sobre outros – uma aliança episódica conseguiu cegar aquela parcela da Coordenação, que travestiu demônios em anjos, revelando uma até então insuspeitada ingenuidade ou, quem sabe, um acentuado oportunismo.

A Coordenação Pré-Sindical certamente discutirá não só a mentira como o próprio mérito do cartaz, equivocado em sua totalidade. Sei que vários de seus membros se manifestaram contra a proposta e em especial a inclusão dos nomes dos três parlamentares. O próprio movimento, tenho convicção, estimulará lideranças mais politizadas, menos presas a vícios corporativistas e capazes de levar somente a verdade em consideração.

É possível que o movimento não só continue a se colocar contra as demissões sem critérios como compreenda a necessidade política de combater o apadrinhamento no serviço público, associado ao parasitismo, à ineficiência e aos fantasmas, tudo enfim que transforma o aparelho de Estado num monstro incapaz de atender aos interesses da maioria da população. Há ainda quem se lembre de dona Carmen?

A mentira, a mistificação e o sectarismo sempre representaram prejuízos para o movimento sindical. O corporativismo é doença de uma sociedade pré-política. Os trabalhadores têm por missão pensar a luta global por um Brasil mais justo, democrático e socialista. E não o farão se continuarem presos a concepções arcaicas, bem mais próximas da Idade Média que de uma sociedade moderna e democrática.
Tribuna da Bahia – 27.06.1989

Seções

Nota do autor

Para a edição eletrônica

Para a edição impressa

Publicitário Sydney Gomes de Rezende recomenda o livro para estudantes de jornalismo

"Emiliano pertence ao grupo de jornalistas politicamente engajados"

Por um estado democrático

Parte II

O grito do campo

A participação política

O leilão das estatais

Clique na imagem para exibir a capa e a referência bibliográfica

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados