Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte VI – Nova República, passagem e desencanto

Alegria, alegria

Lembro-me que há 14 anos, janeiro de 1971, mexeram no cadeado da cela do Quartel do Barbalho onde estávamos, eu e Paulo Pontes, Theodomiro Romeiro dos Santos e mais dois companheiros. Fomos algemados e jogados num camburão, ar destino ignorado. Já passava das 18 horas. Chegamos à Penitenciária Lemos de Brito noite escura. Abriram-se uma porta e uma grade. Vimos o túnel à nossa frente, a rampa que nos levava até a Galeria F, onde ficaríamos alguns anos. Eu, quatro. Paulo e Theo, nove. Os outros, menos.

Fomos colocados cada um numa cela, quase escura. Naquela solidão era difícil imaginar quando tudo acabaria. Era remota e distante a possibilidade de a democracia voltar a ser realidade no país. Muita gente ainda morreria pelas mãos do regime, muita lágrima seria derramada. Mas estávamos certos os que acreditávamos que a ditadura não era eterna, que mais dia menos dia cederia lugar a um outro regime, democrático, onde o povo voltasse a ter voz.

O 15 de janeiro foi a nossa Queda da Bastilha. Curiosa queda: através dos próprios mecanismos do regime, em seu próprio território, a oposição assume o poder com a ajuda de muitos daqueles que durante tanto tempo tinham apoiado o velho regime. Foi um dia de emoção, de alegria. De lágrimas. Poucos brasileiros naquele momento não explodiam de felicidade – os malufistas e os que acompanhavam suas posições.

Não foi simples chegar a isso. Afinal, havia quem acreditasse, logo depois do golpe de 64, que o “regime não duraria seis meses”. Durou 21 anos. E quantos de nós pensávamos que ele cairia por um golpe de força, armado, a partir do exemplo de uns poucos homens corajosos. Houve quem apostasse na possibilidade do surgimento de um setor nacionalista nas forças armadas que promovesse outro tipo de golpe. Nada disso, no entanto, correspondia à realidade e todas as tentativas nesse sentido foram derrotadas.

Para sentir a alegria de ver o autoritarismo retirar-se de cena, foi necessário uma persistente luta democrática do nosso povo e a formação da mais ampla frente de forças sociais que já teve lugar na história do país. Não se tratava de dar outro golpe para acabar com o que havia sido instaurado em 1964, mas de desenvolver toda a sociedade, ou pelo menos a maior parte dela, na perspectiva da democracia.

Há os que preferem chorar, lamentar que tão ampla frente tenha se formado, esquecendo-se de que sem ela não veríamos o fim do regime. Há aqueles que dançam delirantes, ao sabor dos conceitos, esquecendo-se da mediação da política, e saem a dizer sandices, como a de que entre Maluf e Tancredo não haveria diferença. Mas não há choro ou lamento que mude essa realidade: o regime autoritário inaugurado em 64 acabou. Não acabou por uma ruptura abrupta, mas por um longo processo de lutas democráticas que foi envolvendo, progressivamente, mais e mais setores sociais até torna-lo caduco, diante da hegemonia dos setores democráticos. Quem olha para o trem da história apenas como observador é que poderá avaliar de outra forma, dizendo, do alto do Olimpo, que a burguesia é que comanda, desprezando tudo à sua volta.

Mesmo que seja verdade que as classes dominantes tenham se mantido hegemônicas nesse processo, só um cego não percebe que só foi possível acabar com o regime pela força da luta das massas populares. E só a mais estreita miopia política não percebe que não é possível governar, nessa fase de transição, sem levar em conta, mesmo minimamente, as reivindicações das classes exploradas.

Aos setores populares, aos trabalhadores rurais e urbanos, a todas as camadas assalariadas, cabe manter-se atentos, atuantes, presentes na vida política brasileira. Será isso que, antes de tudo, garantirá o atendimento de suas reivindicações. No entanto, é inegável a abertura de um momento histórico favorável aos trabalhadores.

Quem, como Carolina, ficou à janela, ainda não entendeu as lições da História, sobretudo aquela que diz que a democracia é fundamental para os trabalhadores. Nessa ampla frente que ainda será necessária por um bom tempo, os assalariados terão espaço para lutar por seus direitos, tanto os econômicos propriamente ditos quanto os políticos, especialmente no que diz respeito às liberdades sindicais. Na Constituinte, lutarão por uma Carta que expresse a presença e a força dos explorados.

Os que apostam insistentemente no “quanto pior melhor” estão decepcionados: não houve golpe de ultra-direita, não houve guerra civil, o regime acabou e com Tancredo Neves o país transita para a democracia. Hoje, em meio à alegria geral, ainda é possível ouvir a profecia catastrófica de que “dentro de um ano Tancredo não governa mais”.

Engano. Ninguém, muito menos a maioria do povo, espera milagres do novo governo. Sabe que um país esfacelado espera Tancredo, como tem consciência de que haverá mudanças para melhor, mesmo que progressivas. Àqueles que acreditam na democratização da sociedade brasileira cabe viver intensamente a alegria do fim da ditadura e, sem olhos para o passado, participar dos esforços de reconstrução nacional. Enquanto isso, continua vigindo o direito de chorar, tanto para os malufistas quanto para seus eventuais aliados.

Jornal da Bahia – 23.01.1985

Seções

Nota do autor

Para a edição eletrônica

Para a edição impressa

Publicitário Sydney Gomes de Rezende recomenda o livro para estudantes de jornalismo

"Emiliano pertence ao grupo de jornalistas politicamente engajados"

Por um estado democrático

Parte II

O grito do campo

A participação política

O leilão das estatais

Clique na imagem para exibir a capa e a referência bibliográfica

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados