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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte VI – Nova República, passagem e desencanto

Filhos de tua guerra

Ontem, ouvia de um aluno a afirmação, colhida nas asas das aparências, de que o povo precisa sempre de alguém que o guie ou de uma ditadura que lhe mostre o caminho. Escutava suas palavras tão cheio de tristeza quanto os milhões de brasileiros que ainda choram a morte de Tancredo Neves. A mesma tristeza que de alguma forma ele condenava, como se ela, a dor do povo, fosse sinal de fraqueza e submissão, simples procura de um mito onde se agarrar.

Nada pode nos trazer alegria neste momento. A emoção da perda tomou-nos a todos. O povo brasileiro acompanhou o calvário do presidente eleito passo a passo. Não havia um único cidadão nesse país que desconhecesse no detalhe a situação em que ele se encontrava naquele dia, acompanhando a visão dos órgãos de comunicação, nem sempre real, como se sabe. Mas o povo acompanhava. Chorava, rezava, puxava o terço, balbuciava Pai-Nossos, Ave-Marias e Salve Rainhas, colocava ebós, cantava o Hino Nacional, tudo que permitissem sua imaginação e crença.

E eu, no prolongamento imaginário do diálogo com meu aluno, pergunto: por que razão Tancredo é tão chorado, cantado e rezado, enquanto outros morreram no limbo do esquecimento, mesmo tendo exercido a presidência? O que moveu este povo, o que o tornou tão comovido e cheio de lágrimas, o que o fez fixar os olhos no Hospital de Base e no Instituto do Coração?

Devo responder ao meu aluno que este povo fez tudo isso porque é adulto e forte, tem esperanças e não admite nem de longe a hipótese da ditadura. Aquelas milhares de pessoas – silenciosas ou gritando, grande parte chorando – que acompanhavam o cortejo de Tancredo Neves em São Paulo, Brasília e Minas, davam-me a certeza, a segura convicção de que o Brasil ingressara na era democrática para dela não mais sair.

A presença vigilante e firme do povo nas ruas, mesmo que às lágrimas, afasta a tradicional tentação de aventuras golpistas de setores militares ainda identificados com o autoritarismo. Ilude-se quem imagina poder manipular este povo, por um caminho ou por outro – a demagogia ou a ditadura. Sofrendo diante da morte de Tancredo, dizia com toda força que ele, o presidente eleito e hoje morto, representava a esperança de dias melhores. Tancredo foi e é chorado porque soube captar, num momento crucial da história brasileira, as reivindicações e emoções mais profundas do povo.

Tão fielmente interpretou esse tempo que mesmo aqueles que antes o combatiam tão tenazmente foram obrigados, à esquerda e à direita, a reconhecer o seu extraordinário papel na transição à democracia. O povo sabe por quem chorava e chora. Não lamenta a perda de um tutor ou de um pai, mas de um homem que soube sintetizar as dores e esperanças de seu tempo, que soube ouvir os clamores das praças e transformar um Colégio Eleitoral espúrio num momento de libertação de sua gente.

Com Tancredo, não morreram as esperanças tão fortemente alimentadas em 1984, nas praças públicas. Sua morte, junto com nossas lágrimas, trarão as mudanças. O mesmo povo que o chorou tão profundamente, mais profundo ainda será na cobrança de tudo aquilo que pretende ser a Nova República.

Junto com Tancredo, no entanto, morreu o autoritarismo. Ninguém ousará mais atacar a democracia porque sabe que, então, não mais enfrentará a dor do povo, mas sua ira sagrada. Podemos nos lembrar das lágrimas de Cristiane Torloni e de suas palavras precisas diante do presidente morto:”nós não o colocamos no Planalto, mas ele nos colocou a todos lá”.

É verdade que há muito por caminhar, e a população explorada deste País sabe perfeitamente disso.

Mas é preciso dizer que o Brasil é outro, apesar da dor. Talvez devêssemos, com o poeta do povo José Carlos Capinam, entoar o final do poema, quase hino, que ele produziu no calor da emoção da morte do presidente, A Podre República Pobre: “Asas azuis/não mais garrastazus/jardins de flores/não mais jardins de matos/Abril já não é mais cruel/-mês da Ressurreição”. E lembrar com o mesmo poema, que “não somos filhos do ventre sujo/e doente/Somos filhos de tua guerra/contra esta República velha/que combates dentro do teu ventre”.

Jornal da Bahia – 24.04.1985

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