Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte VI – Nova República, passagem e desencanto

O país nos tempos da cólera

O capitão Diego Samaritano, comandante da Nova Fidelidade, não sabia até quando iria continuar rio acima e rio abaixo no Rio Grande da Madalena, já que não podia aportar em seu destino com um navio que levava a bandeira da cólera. Florentino Ariza, morto de amores por Fermiza Daza, não teve dúvidas em responder: “Toda a vida”. E o Nova Fidelidade tinha então um rumo seguro, destino certo: singrar aquelas águas até que todos morressem de amor.

Os personagens são de Gabriel Garcia Márquez e estão n’ O amor nos tempos do cólera. Um navio correria o Madalena, indo e vindo sem ter como aportar, mas conhecendo seus objetivos. Aqui, a nau está em sem rumo. Somos um país quase à deriva, perigosamente desesperançado, com um governo que não sabe o que quer, uma crise econômica gravíssima e uma situação social beirando a calamidade.

Qual o destino do Brasil? É a grande pergunta que paira no ar, e o Governo Federal não tem a mínima condição de responde-la. Os personagens históricos ou são grandes e correspondem às exigências do momento ou são pequenos, tragicômicos às vezes e ficam muito aquém daquilo que a sociedade lhe reclama e possibilita. Sem dúvida Sarney se enquadra no último caso.

As peripécias da vida – ou da morte – fizeram-no presidente da República. Numa saída simplista, alguém poderia dizer que tanto faria Tancredo Neves como José Sarney, como se fossem desprezíveis as diferenças entre um e outro. É claro que nem um nem outro tinha qualquer expectativa evolucionária, mas enquanto a história de um estava comprometida com a democracia, o outro, hoje presidente, perfilou-se sempre e com muita desenvoltura ao lado do autoritarismo e do golpe.

Tancredo seguramente teria consciência de seu papel histórico, entenderia a necessidade de concluir rapidamente a transição, de assegurar a chegada ao porto seguro da democracia para que pudéssemos responder à pergunta sobre o nosso destino nesta fase da política e economia mundiais. Hoje, a que estamos reduzidos? Um presidente civil, fortemente tutelado pelos militares incapazes de enxergar um palmo adiante do nariz, com o horizonte limitado à perspectiva de ficar alguns meses a mais no Palácio do Planalto.

Ao invés de o Brasil discutir sua nova inserção na economia mundial, reciclando-se e assegurando sua independência face às poderosas forças do capitalismo internacional, o Governo Federal reduz sua iniciativa ao congelamento da URP, como se3 isso pudesse satisfazer aos apetites recessivos do FMI e reduzir o déficit público. Não há o mínimo de esforço para se elaborar um programa nacional que responda aos desafios.

A atitude é tão insignificante que sequer responde aos interesses das classes dominantes. O empresariado paulista, ciente da inevitável retração do mercado interno com o congelamento e a perspectiva do fim da URP, já disse que isso não é solução. Que resposta o Governo Federal buscou para a estrutura produtiva, para a ameaça da recessão?Que política de mudança adotará em relação ao capital financeiro?

Há uma aparente ignorância com relação ao que acontece no mundo capitalista. Os países centrais estão vivendo o fim de um padrão tecnológico de desenvolvimento das forças produtivas e experimentando uma mudança de toda a base técnica do sistema, que está sendo denominada de Terceira Revolução Industrial. Tal revolução está marcada por novas tecnologias:automação, engenharia genética, informática etc.

Aumenta a produtividade, cresce o setor serviços em relação à classe operária, acumula-se o desemprego tecnológico estrutural. A Europa formará, em 1993, uma comunidade econômica sem barreiras, o que certamente implicará uma retração de mercado com relação aos países periféricos. Os EUA, como se tem observado, aumentam o protecionismo, diminuindo a possibilidade de venda de produtos brasileiros. E nós, para onde vamos?

De meados dos anos 50 até os dias de hoje experimentamos o padrão de desenvolvimento dependente dos grandes centros do capitalismo internacional. O golpe de 64 procurou impulsionar o desenvolvimento industrial, aproveitando a capacidade ociosa então existente no setor secundário, tudo isso sempre seguindo o modelo da poupança externa.

Mas, e agora José? Para onde se dirige nosso barco?

Na verdade, o problema diz respeito ao conjunto da América Latina. Nos últimos dez anos, a renda per capita do Continente não cresceu. E a perspectiva que se apresenta não é animadora. A dívida externa continua asfixiando a todos. O Brasil tem a maior conta a pagar e seu governo procura sempre faze-lo às custas de inimagináveis sacrifícios por parte dos trabalhadores.

Não é brincadeira. Ou o País se recicla economicamente, entende que a fase do desenvolvimento dependente-associado já passou, que a poupança externa não terá mais papel decisivo para o nosso desenvolvimento, que é preciso adequar-se às novas tecnologias, ou então estamos condenados ao sucateamento do parque industrial, à recessão, ao aprofundamento da miséria de milhões de trabalhadores. Ao invés de enxergar esse quadro quase apolíptico, Sarney prefere se colocar exclusivamente a questão de quantos dias ainda lhe restam no cargo.

E esse novo projeto nacional de desenvolvimento passa necessariamente pela profunda democratização do País. Todos os que têm compromissos com o presente e o futuro da nação estão obrigados a persistir na luta pela democracia. Enganam-se os que imaginam que a democratização será rápida, como o mane que cai no deserto. Será produto da ação dos partidos políticos progressistas, do povo articulado e mobilizado, da ação de todas as instituições ligadas aos interesses populares, como as igrejas, ou não será. Nunca acontecerá como uma dádiva das elites.

É preciso que a desesperança do nosso ovo seja revertida. Que nos juntemos, os que fazem da política um projeto de transformação, para que o desalento seja transmutado em ação organizada. Para que a cólera sagrada das maiorias marginalizadas não fique apenas nas explosões localizadas e espontâneas, mas ganhe força na luta pela democracia, pela melhoria das condições de vida, por um amplo projeto nacional, capaz de nos infundir esperanças a todos, de nos assegurar que o barco caminha para um destino certo: o de um país em condições de responder aos interesses de seus milhões de trabalhadores, e não apenas de suas elites perdulárias e egoístas.

Tribuna da Bahia – 12.04.1988

Seções

Nota do autor

Para a edição eletrônica

Para a edição impressa

Publicitário Sydney Gomes de Rezende recomenda o livro para estudantes de jornalismo

"Emiliano pertence ao grupo de jornalistas politicamente engajados"

Por um estado democrático

Parte II

O grito do campo

A participação política

O leilão das estatais

Clique na imagem para exibir a capa e a referência bibliográfica

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados