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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte VII – Nuestra América Latina

Soy loco por ti, América

As ditaduras da América do Sul valem uma missa? Seguramente não. Essa resposta tanto poderia ser dada pelos 300 mil exilados uruguaios que agora começam a voltar à pátria, como pelos 170 mil chilenos afastados de sua terra; por mais de um milhão de paraguaios que escaparam da ditadura de Stroesner, quanto pela esmagadora maioria da população do Continente, hoje em torno de 260 milhões.

A década de 70 foi amarga para o povo das 13 nações sul-americanas. Ao trágico destino do Paraguai, cuja ditadura já passa dos 30 anos, juntou-se o da grande maioria dos países da América do Sul. As liberdades públicas foram suprimidas, a tortura transformou-se em rotina, as prisões viviam abarrotadas e os assassinatos políticos eram comuns.

Essa reviravolta da década de 70 pode ter pegado de surpresa a muitos. Afinal, o Continente vinha de experiências democráticas turbulentas, mas ricas. As classes dominantes locais, em casos como o do Brasil, haviam escolhido, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, caminhos que variavam desde o populismo brasileiro e o peronismo argentino que comportavam, apesar de seus males, muito mais oportunidades de manifestação e organização do povo que as ditaduras que se seguiriam.

Os líderes populistas e caudilhescos à la Perón ou Vargas e a experiência democrática chilena de então apontavam a possibilidade de o Continente se distanciar dos regimes ditatoriais e abrir as portas da organização dos trabalhadores, pelo menos em alguns países. Os ventos democratizantes do pós-guerra ainda sopravam fortes.

O imperialismo norte-americano, senhor do pedaço, não podia dar o braço a torcer. Afinal, saíra da guerra – mesmo falsamente – como o salvador do “mundo livre” e não podia, tão cedo, advogar saídas de força para os territórios que considerasse sob seu domínio. Assim, procurava meios de conviver com as experiências de Vargas, Perón, Kubitschec ou Eduardo Frei, que afinal não eram ensaios revolucionários, mas tímidas aproximações com a democracia.

A desmoralizante derrota dos norte-americanos nos arrozais do Vietnã levou o Império à loucura. Depois de colocar mais de meio milhão de soldados americanos nos pântanos indochineses e ser fragorosamente derrotados pelos vietcongues, passou a ver perigo vermelho em cada canto do “mundo livre”. E a América do Sul era um desses cantos, carecia preservá-la.

E preservação, na década de 70, tornou-se sinônimo de ditadura, e não por obra do acaso. Durante anos, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, os EUA treinaram milhares de oficiais dos exércitos sul-americanos sob a ótica de um anticomunismo canhestro. Pela Escola das Américas, nos EUA, passaram figuras que mais tarde seriam tristemente célebres como Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e René Barrientos.

Hoje, não é mais segredo que os EUA participaram ativamente da articulação de golpes militares no Continente. No caso brasileiro, isso ficou mais claro com a recente divulgação de documentos. É difícil engolir a tese de que a emergência das ditaduras da década de 70 foi resultado de uma luta “em defesa da democracia” e “contra o perigo vermelho”.

Claro que nessa estratégia de militarização dos regimes da América do Sul havia razões de natureza econômica. O capitalismo, em escala mundial, com os EUA à frente, começava a enfrentar uma crise de proporções só semelhantes à do crack de 1929. O Império sabia que ela chegaria à América do Sul com alguma violência, e hoje o Brasil sabe muito bem disso.

Tratava-se de evitar conturbações e garantir o domínio do Continente. Neste caso, os fins justificavam os meios. Mas a crise não pegava apenas os países periféricos. Atingia também o centro do capitalismo, implicando uma acentuada fragmentação de poder entre as nações capitalistas centrais, e dando a alguns países da América do Sul maior possibilidade de barganha junto às diversas potências capitalistas.

A crise teria inevitavelmente conseqüências sociais explosivas, como explosivo por si só era o fato das ditaduras. O povo do Brasil, da Argentina, do Uruguai e de tantos outros países levantou-se na luta pela democracia, na perspectiva de fazer ruir os regimes autoritários e todo o edifício econômico assentado na dependência aos EUA e ao capitalismo internacional, associado à exploração do homem rural pelo latifúndio, pela plantation e pela grande empresa agrícola.

Nestas horas, muitos filhos da América estão voltando aos seus lares uruguaios e argentinos. Milhares, há poucos anos, chegaram de volta ao Brasil. Não demora o dia em que o Chile fará de Pinochet apenas uma triste recordação, como os paraguaios farão de Stroesner.

A América do Sul inteira compreendeu que é hora da luta pela democracia e pela independência do Continente. A democracia só se efetivará se forem garantidas condições reais, institucionais, de participação popular na vida das nações. Caso contrário, continuaremos correndo o risco de ver o sol transmutar-se em completa escuridão.

Jornal da Bahia – 05.12.1984

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