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COMBATE POLÍTICO ATRAVÉS DA IMPRENSA

Parte VII – Nuestra América Latina

Chile: Martírio e luta de um povo

“O dia 4 de setembro de 1970 chegava ao fim. (...) Aquela foi uma noite de grande alegria. O povo cantou e dançou até de madrugada. Nem um só vidro quebrado em Santiago. Nem uma só bofetada castigou a arrogância do inimigo derrotado (...) Quase três anos após (...)Allende fora assassinado (...), os soldados cheios de ódio nos lugares públicos destruíam, roubavam, violavam e assassinavam. (...) Quando setembro foi do povo, as autoridades policiais não retrataram nenhuma desordem. Quando foi da burguesia, terminou manchado pela morte de quase 400 mil pessoas”. ( Em “Diáletica de uma derrota”, de Carlos Altamirando).

Quando, nesta sexta-feira, a Câmara Municipal de Salvador estiver homenageando a figura de Salvador Allende, estará também expondo as feridas de sangue que infernizam a vida do povo chileno, martirizam os 1.139 presos políticos, angustiam os 14 prisioneiros com pedidos de pena de morte e massacram a consciência democrática de toda a América Latina.

Naquele 11 de setembro de 1973, quando o golpe sangrento do general Augusto Pinochet tornou-se vitorioso, derrotava-se uma das mais ricas experiências da luta pelo socialismo no Continente.

Aquele foi um dia triste para todos nós, mais de 20 prisioneiros políticos na “Lemos de Brito”, em Salvador. As balas e bombas dos golpistas levaram ao sacrifício o extraordinário combatente que foi Allende. Soubemos depois de seu exemplo de resistência, no Palácio de La Moneda: “Neste momento estão passando os aviões. É possível que nos alvejem. Saibam, porém, que aqui estamos pelo menos com nosso exemplo, saibam que neste país existem homens que sabem cumprir suas obrigações; tomo esta atitude por mandato do povo e por vontade consciente de um presidente que tem a dignidade do cargo”.

Presos, assistíamos não só a violência terrorista de Pinochet e seus seguidores, mas também a lição do homem que sabia que seu exemplo ficaria para a história, gravado na consciência dos que lutam pela democracia e pelo socialismo nessa América Latina. “Os generais traidores não sabem o que é um homem honrado”, diria debaixo do bombardeio, completando, antes de seu sacrifício: “Assim se escreve a primeira página desta história. Meu povo e a América escreverão o resto”.

O Chile conseguiu viver a dramática, rica e encorajadora experiência da Unidade Popular graças à sua história de luta e à aproximação, desde há muito, de seu povo com a democracia e o socialismo. Em 1932 chegou a viver o episódio de uma fugaz República Socialista, tendo à frente o Comodoro-do-ar Marmaduque Grove Vallejo. Apesar de ter durado exatos e curtos 12 dias, tal República gravou fundo na consciência dos trabalhadores chilenos a idéia do socialismo. E a reação violenta das classes dominantes à Unidade Popular indica também o quanto elas tinham noção da simpatia da maioria da população pela perspectiva de o país alcançar o estágio socialista.

Como em todos os golpes e ações contra-revolucionárias dessa sofrida América Latina, os EUA estavam presentes, ajudando diretamente aos “contra”, como procede agora com relação à Nicarágua. Tal conclusão sobre o Chile não partiu de quaisquer setores de esquerda, mas de uma Comissão do Congressos dos EUA, presidida pelo senador Frank Church. Entre 1970 e 1973, A CIA fez de tudo, desde oferecer apoio à candidatura direitista de Jorge Alessandri até preparar e financiar a greve empresarial de outubro de 1972 e a paralisação de agremiações e colégios profissionais a partir de julho de 1973.

Em dezembro de 1975, quando já eram amplamente conhecidas as conclusões escandalosas da Comissão Church, o representante do departamento de Estado, Thomas Farer, disse claramente: “Na política dos EUA para a América Latina, a segurança nacional americana é prioritária. Por isso foram necessárias intervenções diretas e também menos claras. Nos próximos dez anos, não haverá seguramente intervenções como na República Dominicana; é previsível, entretanto, que ocorram intervenções dissimuladas. Não é concebível que a América Latina se torne socialista e de modo algum os EUA poderão tolerar o desenvolvimento de um capitalismo nacional”.

A ditadura, entretanto, não conseguiu destruir os sonhos e esperanças do ovo chileno. A dar lições a este Brasil de esquerdas desunidas, o Chile conseguiu unificar todas as forças de esquerda, reafirmando a riqueza da pluralidade ideológica e política “onde marxistas, racionalistas laicos e cristãos, respeitando as identidades de cada um, convergem em uma mesma tarefa histórica de construção de uma sociedade sem exploração e sem opressões”, como diz o documento de composição da frente. É essa união que vem possibilitando o crescimento de mobilização popular contra a ditadura.

Na Izquierda Unida estão a Esquerda Cristã, o Partido Radical, o Mapu, o Partido Socialista do Chile, o Partido Socialista Histórico, o Movimento de Esquerda Revolucionária e o Partido Comunista do Chile. Esse conglomerado leva à prática, cotidianamente, a idéia de derrotar a ditadura e restituir ao Chile a democracia usurpada, “defendendo intransigentemente a democracia como forma de governo e de convivência social, em espacial os princípios sobre os quais se sustenta: soberania popular e direitos humanos”.

A luta pela democracia no Chile atual se funde indissoluvelmente, na perspectiva das forças de esquerda unidas, com a luta pelo socialismo, devendo significar “a ampliação permanente dos direitos humanos e o amplo exercício da liberdade e do pluralismo”. A mobilização do povo sob duras condições vai alcançando, pouco a pouco, o caráter nacional pretendido pela esquerda, incentivando a desobediência civil e tornando o país cada vez menos governável pelo ditador Augusto Pinochet, hoje sitiado também pelas forças democráticas de todo o mundo.

As condições para a derrota da ditadura chilena estão postas. Não só o aumento das mobilizações internas como as condições internacionais parecem indicar a proximidade do fim de Pinochet e seus seguidores. A década de 80 trouxe um novo alento à luta democrática na América Latina, principalmente a partir de seus meados. Alfonsin simbolizou o fim da ditadura Argentina e a mobilização que levou Tancredo Neves à vitória do Colégio Eleitoral jogou a pá de cal sobre a experiência militar brasileira. Os EUA, depois da ajuda aberta ao regime de terror chileno, resolveram adiantar-se e começar a admitir leves mudanças de rota, talvez temerosos de uma sublevação popular de maior profundidade.

Mas, para além da perspectiva de iniciar um período de transição – e isso implica necessariamente a derrota da ditadura – é fundamental que todos os que lutam pela democracia e pelo socialismo se unam no sentido de exigir a libertação dos prisioneiros políticos, de não permitir que ocorram condenações à morte, de acabar com a tortura, de garantir o respeito aos direitos humanos. Allende, dos escombros de La Moneda, chama a esta luta. Neruda, das alturas de Machu Pichu, nos conclama prosseguir a caminhada a uma pátria onde a poesia seja um canto à liberdade desfrutada por todos.

De longe, do infinito onde tentaram confinar seu canto de dor, Victor Jara ainda faz ecoar o grito dilacerante que estremeceu o estádio do Chile, antes de morrer fuzilado naquele 15 de setembro de 1973.:

"Que espanto causa el rostro del fascismo
La sangre para ellos son medallas
La matanza es acto de heroismo
Es este el mundo que creaste, Dios mio?
Para esto tus siete dias de assombro y de trabajo?"

Jornal da Bahia – 09.09.1987

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