Emiliano José
É curioso como o assunto é recorrente. Sinal, quem
sabe, de um certo mal-estar. Sinal de que a catarse ainda não foi
feita, de que o espectro continua a povoar as mentes de alguns dos
gatekeepers do período. O debate ganhou corpo novamente com o
Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, que leva o subtítulo A
imprensa e Fernando Collor. Desta relação tratei de modo
relativamente exaustivo no livro Imprensa e Poder: Ligações
Perigosas (São Paulo: Hucitec; Salvador: Edufba, 1996) recebido com
o mais estrepitoso e respeitoso silêncio, salvo as exceções do
Correio Braziliense, da CartaCapital e do jornalista Juca Kfouri.
Se é para surfar, voltemos à onda. Collor, sabe-se,
claro, não é produto apenas da mídia. Mas é também um produto dela.
Não apenas da Rede Globo, este conglomerado tão íntimo do poder
político após 1964, que dispensa esforço maior de demonstração.
Produto também do restante da imprensa brasileira, que se dedicou de
forma disciplinada, determinada, a colaborar com "o caçador de
marajás" (a revista Veja que o diga), para que ele chegasse aonde
chegou. Qualquer pretensão à inocência ou a uma atitude puramente
jornalística pode soar como insulto à inteligência dos cidadãos
comuns.
A imprensa no Brasil pós 64, primeiro, estabeleceu
uma relação complacente com a ditadura. À altura do governo Geisel,
faz um jogo combinado para produzir uma transição sem rupturas, que
nos levou à singular situação atual: vários dos mesmos e consagrados
nomes dos tempos dos militares circulam com desenvoltura e destaque
não só na vida política como na mídia.
Após Sarney, procura um nome que satisfizesse seus
propósitos políticos. É, estamos falando de projetos políticos dos
grandes conglomerados empresariais da mídia. Antes mesmo que o poder
político, stricto sensu, pensasse no neoliberalismo, a imprensa
brasileira já se arvorava a defendê-lo. Cumprirá um papel essencial
na montagem dessa pobre, mas avassaladora hegemonia neoliberal que
permeia as nossas redações.
Collor era a salvação da lavoura. E a construção
dele começou cedo. A revista Veja, sempre destacada pelo fato de ser
a maior circulação, foi vanguarda nessa construção e também no apoio
ao governo dele. Disso, certamente, Conti não se esqueceu porque já
era um dos mais importantes gatekeepers de Veja. Era preciso salvar
o País de Lula e de Brizola. Essa era a questão-chave.
Nem os empresários da mídia acreditavam que Lula
fosse implantar o socialismo, mas era bom divulgar que sim. E quem
for à Veja, no momento decisivo, no segundo turno, verá o que ela
fez para tentar evitar a vitória de Lula. Construiu um discurso
terrorista, como se a guerra fria prosseguisse. Todas as pessoas que
tivessem um pequeno patrimônio deveriam temer aquele operário na
Presidência da República - isso não é um recurso semântico, está
escrito mais ou menos assim em matéria de 29/11/1989.
Quando Collor assume, a imprensa brasileira
comemora. Embarca no presidente-espetáculo, mas só o apóia porque
concorda com seu projeto, com seu programa. Não concordasse, e logo
seria rotulado de exótico. Nem mesmo diante do draconiano plano
econômico de Collor, que confiscou dinheiro de todos os que tivessem
importâncias superiores a 50 mil cruzados novos nos bancos, a
revista Veja vacilou no seu apoio ao presidente. A revista seguia
rigorosamente partidária. O jornalismo no Brasil sempre teve lado.
Não fosse a decisão do irmão de expor as vísceras
apodrecidas da família, e provavelmente a lua-de-mel teria
continuado. Toma-se Veja como exemplo de militância collorida, de
ator empenhado na eleição e na manutenção do governo Collor, mas
isso poderia ser estendido ao restante da imprensa, exceção feita à
revista Istoé. Esta dedicou-se a revelar a rede corrupção montada no
Planalto, com reportagens consistentes, que revelaram praticamente
tudo o que mais tarde se apurará a partir da entrevista de Pedro
Collor. E o trabalho de Istoé mereceu sempre o mais respeitoso e
estrepitoso silêncio por parte do restante da imprensa brasileira,
como agora quando das matérias da revista CartaCapital em relação à
cena brasileira recente. Esta é uma resposta que não é dada na
discussão que se estabeleceu nos últimos dias. E não é propriamente
um enigma difícil de elucidar.
Os que sentavam nas cadeiras de chefias importantes
naquela conjuntura histórica não o faziam por acaso. Todos, sem
exceção, sabiam quem era Collor e sabiam que estavam cumprindo
determinações dos patrões. E não o faziam com pesar, nem com
dificuldade. Tinham assimilado a ideologia do dono. É fácil
identificar algumas ovelhas desgarradas, que aceitaram ou propuseram
propinas. Duro é aceitar que o establishment das redações, os
honorários da profissão fossem os executores fiéis da política dos
patrões. Duro é concluir que apoiaram Collor desde o nascedouro e
com ele ficaram até quando puderam.
O rompimento da imprensa com o
presidente-espetáculo, para dizer de modo rápido, foi resultado mais
de uma deterioração do próprio poder político, do bonapartismo
deslocado de Collor, do que de uma deliberação da própria imprensa.
E a queda dele, para ser verdadeiro, só se consumou no momento em
que a revista Istoé, ela outra vez, colocou a CPI no ponto de
não-retorno, quando fez a matéria de Eriberto França, provando as
relações entre o Planalto e Paulo César Farias. Só ela teve a
capacidade de deslocar a cobertura, de buscar entre fontes
não-acreditadas o fato essencial. E isso também é rigorosamente
silenciado em toda a discussão que povoou a imprensa nos últimos
dias, que parece resumir-se à idéia de que, eliminando-se alguns
maus elementos, o nosso jornalismo volta ao seu leito normal.
Há jornalistas que dizem não gostar de teoria. A
esses peço desculpas pelo que vou dizer a seguir. A imprensa
brasileira integra o poder, defende os interesses das classes
dominantes porque faz parte delas - e sempre cabe situar as
exceções, entre as quais poderiam ser lembradas as revistas
CartaCapital, Caros Amigos e o Correio Braziliense, que se abriga
este texto. Integra o que Gramsci, volta e meia sacado como adereço
ornamental de uma ou outra matéria, chamava de Estado, este visto
não só como o aparelho político, mas ampliado para as instâncias de
dominação ideológica, entre as quais está a imprensa.
Se isso tem um vasto alcance teórico em todo o
Ocidente, tem muito mais no Brasil, e os exemplos recentes só nos
ajudam, infelizmente. Será possível amanhã dizer, como se tem ouvido
neste momento em relação a Collor, que não se sabia do significado
do governo Fernando Henrique Cardoso? Que isso só foi possível
conhecer a posteriori? No mínimo, no mínimo, a revista CartaCapital
tem exposto o significado dessa administração. Collor, assim, pode
ser visto como parte, apenas como parte, desse processo, desse
escândalo que é a imprensa brasileira. Collor, por hiperbólico,
excessivo, não pode aparecer contraditoriamente como o ente
purificador dessa imprensa, e às vezes aparece. É como se a
imprensa, tendo-o defenestrado (e esse papel é sempre
superestimado), purgou os seus pecados.
A imprensa brasileira foi e continua a ser um
elemento essencial na construção, agora muito mais acelerada, de um
país que marginaliza a maioria da sua população, que retira direitos
sociais, que privatiza tudo, que reduz tudo a mercado. Ela não cobre
este país injusto. Ela constrói diariamente este Brasil. Não são
apenas os crimes pontuais do jornalismo que devem ser discutidos.
Mas este, o maior, o de ser construtor, e não apenas cúmplice, dessa
sociedade crescentemente injusta e excludente. Para tristeza de quem
acredita no potencial do jornalismo.
Se há uma missão a cumprir é a de repor a idéia
revolucionária do jornalismo - a de ver verdadeiro, a de iluminar as
zonas de sombra do poder, a de possibilitar a discussão das
alternativas variadas para o País, a de admitir que sempre há mais
de uma saída. Idéia da qual a imprensa brasileira está muito
distante.
(O texto do artigo é ilustrado por capas de
revistas da época Collor.)
Veja
"Collor de Melo O CAÇADOR DE MARAJÁS"
O lançamento (23/3/88) - Um ano antes da eleição, e na
companhia de outras ilustres, começa a construção do candidato. A
capa fala por si. Dentro, o texto segue na mesma linha
Veja
"LULA E O CAPITALISMO As mudanças que o PT promete dividem o
Brasil"
O inominável (29/11/89) - Quem não se lembra? Às vésperas
do segundo turno. Se Lula vencesse sumiriam os empregos,
investimentos, o dinheiro, viriam os sandinistas etc. etc....
Veja
"A VITÓRIA DOS PROFISSIONAIS"
Aleluia! Aleluia! (29/1/92) - Que bom! As ervas daninhas
haviam sido expulsas dos jardins da Dinda. Com ACM, Bornhausen, o
PFL, a turma toda, o governo e o País seriam uma beleza
Istoé
"COLLOR, O CANDIDATO DOS EMPRESÁRIO Por enquanto"
O caminho (25/10/89) - Roberto Marinho, José Eduardo
Andrade Vieira, Mário Amato, Olacyr e todo o pessoal já tinham
candidato. Notava-se a presença de Paulo César Farias e o "fluxo de
caixa"
Istoé
"ELE COMPLICA A VIDA DO GOVERNO"
A antevisão (24/10/90) - Sete meses de governo. Em
detalhes, onde, como, quem e por que se roubava e se continuaria a
roubar. Com endereço e telefone. Nas redações e palácios, silêncio
Istoé
"ESTRELAS DO JOGO PESADO"
Os assaltos (14/8/91) - Sete meses antes de Pedro Collor
falar: quem estava roubando, onde (com endereço e telefone) e com
quem. Nas redações e palácios, estrondoso silêncio
Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 5/12/99 e na
revista Carta Capital de 22.12.99.