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Apresentação de Bernardo Kucinski *

Tudo começou com o confisco

Como definir a relação entre imprensa e poder? Trata-se de uma tarefa difícil, porque o jornalista tem um mandato da sociedade democrática para bem informar, mas essa mesma sociedade faz da informação uma mercadoria. O espaço do jornalismo é, portanto, contraditório. Pode ser mais amplo ou mais estreito, conforme a resultante do confronto entre esses dois direitos, o democrático e o mercantil.

Já por este raciocínio, não pode ser verdade que os donos de jornais sejam os únicos responsáveis pela complacência do jornalismo brasileiro perante o poder. Essa tese, dominante tanto entre jornalistas como nos meios acadêmicos, é, em si mesma, uma ideologia justificadora da própria complacência. A complacência é o resultado normatizado do confronto entre o nosso tipo de democracia e o nosso tipo de capitalismo. É sistêmica e de natureza cultural, um código de comportamento que envolve, de modos diversos, donos de meios de comunicação e jornalistas. Um padrão de jornalismo, típico de sociedades subdesenvolvidas, reforçado, no nosso caso, por duas décadas de regime militar.

O impeachment de Collor pode ser interpretado como um momento de ruptura desse padrão. Um momento importante. Por isso, abalou a ideologia dominante nas academias e nos botequins, sobre a importância do jornalismo brasileiro. Mostrou que nem sempre ele se identifica com o poder. Mostrou que dá para fazer jornalismo de outro padrão no Brasil, dá para agir naquele espaço de contradições de forma a elevar o teor de democracia do sistema. Foi o que fizeram Luís Costa Pinto, da Veja, Bob Fernandes e a trinca Augusto Fonseca, João Santana e Mino Pedrosa, da IstoÉ.

Além dos fascinantes depoimentos de Bob Fernandes e João Santana, exemplos notáveis de jornalismo investigativo, o trabalho de Emiliano José tenta responder duas perguntas centrais: 1) por que o padrão foi rompido exatamente naquele momento 2) por que logo se restabeleceu o domínio do padrão complacente?

O motor do rompimento foi o confisco da poupança – e talvez falte a ênfase nesse fator na abordagem de Emiliano. Tudo começou com o confisco. Com aquele golpe de suprema arrogância, Collor traiu seu eleitorado, confundiu o público com o privado, invadiu e transtornou a vida de pessoas e famílias, tornou-se de imediato um devedor da sociedade. A agressão foi internalizada por algum tempo no subconsciente coletivo de uma classe média collorida, totalmente chocada pela traição. E arrebentou com fúria, na forma de um linchamento político, quando a hiperinflação voltou.

Veja e IstoÉ lideraram o processo, porque são os meios de comunicação, ao mesmo tempo, mais sensíveis à classe média e menos ligados à tradicional oligarquia do poder. Em todos os outros veículos, inclusive Folha de S. Paulo, a circulação era tão pequena, na época, que se pode dizer que a maioria dos leitores eram os próprios protagonistas das notícias: empresários, políticos, artistas, governantes. Veja é a única publicação no Brasil que tem um público leitor como categoria distinta da elite do poder. Esse público começou a cobrar. É uma revista em processo permanente de elaboração e reforço de uma ideologia de classe média, e portanto muito sensível aos seus sentimentos. Em geral, tenta impor valores, mas, no processo, acaba também recebendo. Veja foi empurrada por seus leitores ao rompimento com Collor, mais ainda, porque IstoÉ não lhe deixou alternativa.

As mesmas razões, em menor intensidade, valem para IstoÉ, uma revista bolada para disputar com Veja o seu próprio espaço. No entanto, IstoÉ contava com o peso maior da figura do Editor. Mino Carta já havia rompido antes com o padrão complacente - o episódio das duas reportagens da Veja sobre tortura em pleno regime Médici. E sua saída da Veja parece ter marcado um rompimento com os barões da imprensa em geral, tanto assim que tentou fundar seu próprio diário, A República.

O livro de Emiliano traz preciosos dados novos sobre a cumplicidade de alguns empresários revoltados pelas porcentagens exigidas por PC Farias, muito acima da taxa de corrupção a que estavam acostumados. O contexto do rompimento do padrão complacente da imprensa é o de uma exaustão do sistema, grupos econômicos sandwichados entre uma estagnação de dez anos e exigência de caixinhas muito superiores ao normal. Tudo isso apareceria, mais tarde, com plenitude na CPI do orçamento, que foi apenas o desenlace natural da crise iniciada no impeachment.

Quando setores importantes da burguesia no Brasil sentem que não estão mandando diretamente no Estado, surge o espaço público burguês; o espaço no qual vão levantar suas demandas. Foi assim nos anos 50, quando as oligarquias proprietárias dos jornais se levantaram contra o Estado populista e, no limite, conspiraram para derruba-lo. Foi um período de jornalismo burguês combativo. As duas décadas de ditadura são de total identificação entre burguesia e Estado e, portanto, a não-necessidade de um espaço público e de uma imprensa crítica.

Com Collor, a identificação de classe não se rompeu, o que valoriza ainda mais o feito jornalístico. Os grandes veículos oligárquicos, O Estado de S. Paulo e a Rede Globo ficaram a reboque dos veículos menos enraizados na oligarquia. Acima das divergências, colocou-se durante todo esse período, até a eleição de Fernando Henrique, o inimigo comum, Lula. Por isso, talvez, o padrão complacente da imprensa se recompôs parcialmente, logo depois do impeachment.

Acredito, no entanto, que nosso Collorgate ainda contribuirá para elevar o conteúdo democrático do jornalismo brasileiro, até o rompimento definitivo do padrão complacente. Sinais disso aparecem, com freqüência cada vez maior, no rádio e na televisão. Livros como este, de Emiliano José, certamente contribuirão para que o impeachment de Collor seja um paradigma também no ensino de jornalismo. Afinal, jornalistas comandaram um processo que, democraticamente, derrubou um presidente corrupto. Não será mais preciso aprender jornalismo com Bob Edwards e Carl Berstein, os heróis de Watergate, como eu tive que aprender. Já temos nossos heróis.

* São Paulo, outubro de 1995

Bernardo Kucinski é professor de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi editor da revista Veja, participou da criação da revista Bondinho e do semanário Opinião. Foi um dos fundadores dos semanários Movimento e Em Tempo, ex- produtor e locutor no serviço brasileiro da BBC de Londres. É autor dos livros O que são as multinacionais; Fome de Lucros; Pau de Arara; A Violência Militar no Brasil; Ditadura da Dívida; Abertura, história de uma crise e Jornalistas e Revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa. Seu último lançamento: A síndrome da antena parabólica – Ética no jornalismo brasileiro

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