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Nota do autor

Sem os caras-pintadas a história seria outra

Foi a partir de uma sugestão do professor Antônio Albino Canelas Rubim, da Universidade Federal da Bahia, que me aventurei a trabalhar as relações entre a imprensa e o poder político, concentrando-me, para tanto, no período do impeachment do ex-presidente Collor, e tendo como objeto, prioritariamente, a imprensa escrita – que a redundância seja perdoada em benefício da clareza – e, mais especificamente ainda, as revistas Veja e IstoÉ.

No momento em que iniciei os estudos, havia uma natural euforia dos meios de comunicação a fornecer munição aos que conferem à imprensa o poder de subordinar completamente a esfera política. O desempenho durante o impeachment aparentemente sustentava tal análise. Não considerada prudente acompanhar essa visão. E não acompanhei.

Ao final da pesquisa, que resultou numa dissertação de Mestrado defendida na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em dezembro de 1994, pude concluir que não houve, no caso do impeachment, como a imprensa pretendia, uma supremacia tão absoluta dos meios de comunicação sobre o Parlamento.

Houve barganhas, trocas de posições. Negociações que redundaram num conveniente encontro de interesses para ambos os lados – imprensa e Legislativo. Diferentemente do que vai ocorrer com a CPI do Orçamento, que também merecerá minha atenção, onde o Parlamento dá as cartas soberanamente, a evidenciar a fragilidade da imprensa que emerge do pós-impeachment, ao contrário de tudo que se disse e da autoproclamação de poder que ela mesma faz durante largo tempo.

A análise sobre a imprensa recua, rapidamente, aos idos de 64, passa pela ditadura, pela Nova República, e dedica mais atenção ao período que precede a ascensão de Collor à presidência da República, quando a imprensa faz dele o seu candidato, e ao idílio entre ela e Collor, durante o governo dele.

O rompimento com Collor é detonado pela entrevista de Pedro Collor à revista Veja, no final de maio de 1992. E tanto é explicado pela dinâmica jornalística que se impõe a partir da matéria, quanto pelas cisões no bloco dominante, que a imprensa passa a refletir. Antes desse episódio, IstoÉ, principalmente, e Folha de S. Paulo, num menor grau, ficaram solitárias na luta contra Collor.

Em agosto de 1992, a cena é ocupada pela sociedade civil, pelos caras-pintadas. Sem a emergência desse novo ator, apesar da atuação da imprensa, a história poderia ser outra. Imprensa e sociedade civil pressionam o Parlamento, que cede, quase unânime, aos apelos, e recebe o aplauso da Nação, não sem antes produzir uma negociação sobre o poder vindouro, de modo a não permitir quaisquer abalos no bloco hegemônico de poder.

A CPI do Orçamento vai deixar a rainha nua. O Parlamento, a seu modo e de acordo com seus interesses, se mexe com muita competência e a imprensa não achar o caminho de casa – da notícia, se por notícia entendermos, no caso, o desvendamento daquilo que cercava o escândalo envolvendo o Legislativo. Em tudo por tudo, ela passou batido. Sem que o reconheça, claro. No impeachment, se autoglorifica. Aqui, silencia, convenientemente.

Este livro, uma versão resumida da dissertação de Mestrado a que me referi, deve agradecimentos não só ao professor Antônio Albino Canelas Rubim, como aos jornalistas que pacientemente me deram riquíssimos depoimentos: Augusto Fonseca, Bob Fernandes, Clóvis Rossi, Gilberto Dimenstein e João Santana. Deve agradecimentos também ao professor Antônio Fausto Neto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pela entrevista e observações. Inútil dizer que eles não têm nada a ver com as opiniões e as deficiências do trabalho. Os depoimentos deles estão separados do conjunto do texto, podendo ser lidos e analisados em sua contextualidade.

O professor Fausto Neto vai demonstrar que o discurso da imparcialidade da imprensa produziu a parcialidade na cobertura da eleição de Collor. Augusto Fonseca contará como foi possível, voltando-se para a cozinha do poder, criar um fato, com o de Eriberto França, que tornasse a CPI do PC irreversível. Clóvis Rossi dirá que a imprensa, se tivesse tido outra atitude nas eleições de 19879, menos comprometida, mais jornalística, talvez não precisasse de tanto esforço para tirar Collor do poder, porque ele não teria sido eleito. Bob Fernandes conta detalhes da cobertura de IstoÉ, anterior à CPI do PC, revelando inclusive uma tentativa de suborno contra a revista para evitar a publicação de matéria. João Santana, a par de esmiuçar como se desenvolveu o trabalho de Istoé na CPI do PC, desmistifica a idéia da existência de jornalismo investigativo no Brasil. São contribuições riquíssimas para a compreensão dessa fase do jornalismo brasileiro.

Creio que João Santana tem razão quando diz que quando a imprensa é endeusada, é sinal de que a sociedade vai mal. Nosso saldo pós-impeachment não é alentador, ao menos se olharmos os meios de comunicação do ponto de vista dos interesses da sociedade. Fortaleceu-se a pretensão de uma imprensa que atua cegamente em busca do novo e do sensacional, sem que se pergunte sobre as vítimas que deixa pelo caminho. Estimulou-se uma atitude oracular, de quem tudo sabe, de quem não deve satisfações a ninguém. Solidificou-se uma postura de nunca refletir sobre os erros.

Mais do que nunca, a imprensa continua sólida na sua posição de camuflar suas opções políticas, tão evidentes, sob o manto sagrado daquilo que ela arbitrariamente qualifica como notícia, sob postura olímpica de quem apenas cobre os acontecimentos. Nunca admite ter lado, preferência, partido – e ela sempre os tem.

Que importa que tenha sido tão conivente com a ditadura? Que importância tem se apoiou Collor com um entusiasmo militante? Que interessa se, na seqüência, o descarta, quando já havia se tornado incômodo? Por que indagar, já mais próximo de nós, da escolha que ela faz, tão explícita, por FHC nas eleições de 1994?

Essas perguntas são evidentes e incômodas. Afinal, a imprensa finge acreditar que apenas cobre os acontecimentos. Não tem por que refletir sobre sua trajetória. Pode sempre, em todos os episódios, para além das conseqüências de suas intervenções, acreditar-se inocente, tranqüila caixa registradora da história. Pode passar de uma posição a outra incólume, o que ela naturalmente não perdoa naqueles que se dedicam à política stricto sensu. Trata-se de um interessante jogo de faz-de-conta, um discurso repetido insistentemente nos editoriais, o da objetividade e da imparcialidade, editoriais que, aliás, constituem espaço que ela admite ser o da opinião, esquecendo-se ou fingindo ignorar, que o exercício do jornalismo, cotidianamente, termina por ser opinativo, mesmo quando se traveste de pura e simples notícia.

Se o nosso olhar se concentra nas relações nas relações com a política especificamente, e nós nos dedicamos a isso com mais ênfase, é necessário dizer que a nossa imprensa é profundamente partidária. Não, não creio estar revelando nenhuma novidade, mas a repetição de uma obviedade, talvez leve consigo a pretensão de fazer guerrilha com outra pretensa obviedade: a de que a imprensa é imparcial e apartidária.

Os últimos anos, que vão da ascensão de Collor ao seu destronamento, passando pela eleição de Fernando Henrique Cardoso e chegando até o governo deste, revelaram, mais do que nunca, uma imprensa partidária, que não carrega dúvidas quanto às suas opções, que desnuda sua imbricação com o poder, que dele não se afasta, salvo episodicamente e com a convicção, quando isso ocorre, de que outro mais forte poder se avizinha, favorável a seus interesses.

Tenho consciência que isso pode parecer muito simplificador, e de alguma forma o é. Certamente, o jornalismo é mais que isso. Não é apenas o partido das classes dominantes. Também os de baixo comparecem. Atrapalham. Incomodam. Invadem a festa, penetras indesejáveis. Tudo muito bem. Tudo muito certo. Eu aceito o argumento. Mas insisto: o jornalismo tem partido, e mais o tem quando encruzilhadas históricas se avizinham.

Não tem dúvida em apoiar Collor quando Lula ameaçou. Não vacila em apoiar FHC abertamente quando Lula, ele outra vez, aparece como um perigo. Descarta Collor, certamente, com a convicção de que no horizonte não havia qualquer risco para a ordem estabelecida. Mesmo assim, no decorrer da crise, propõe a renúncia de Collor como melhor caminho, de modo que o país, e ela em particular, não enfrentasse a turbulência do impeachment. Mesmo quando ele se vai, atingido pelo impeachment, ela diz: o programa dele era bom, e diz até hoje de alguma maneira, o ruim era o homem.

Este livro não abarca as eleições de 1994, muito menos os primeiros meses do governo FHC. Mas não resisto à tentação de me referir, ainda que rapidamente, à atitude da imprensa, que foi fernandohenriquista até o fundo de sua alma durante as eleições e não consegue disfarçar o seu apoio no decorrer da nova administração, ao menos na sua fase inicial. Os mais entusiasmados com a performance do jornalismo nos dias atuais poderão contra-argumentar que através dele surgem críticas, que revelações importantes vêm à tona e estarão parcialmente com a razão. As pequenas mazelas do governo, a demissão de um Henrique Hargreaves, de um Milton Dallari, a polêmica crescimento versus recessão. Mas, basta que os de baixo queiram dançar, embalados pelos acordes de violinos tocados pelos de cima, como diria Marx, para que a imprensa cuide de tentar nos assustar com a fantasiosa infiltração do “Sendero Luminoso” entre os milhares de trabalhadores sem-terra que, ousados, querem terra. Ela sempre toma partido. Sabe de que lado está. Politiza sua ação. Tem consciência disso.

Não carrego ilusões de uma modificação do jornalismo através de um processo reflexivo da própria imprensa. Estamos em tempo de monopólios, não de empresas democráticas. Estamos muito distantes até mesmo do modelo de jornalismo da livre-concorrência, sepultado lá pelo fim do século XIX. Estamos na era Murdoch, Marinho, Berlusconi. São eles que dão o tom. E seus interesses são grandes demais para que brinquem com esse negócio. Eles estão sempre com o olho no mercado, mas, por isso mesmo, sempre com o olho na política, no poder.

O jornalismo, se pode mudar, e assumir uma outra feição mais democrática, capaz de expressar de modo mais expressivo os diferentes e complexos interesses e idéias da sociedade, só poderá fazê-lo graças a avanços políticos, culturais e sociais das classes hoje dominadas. São elas, no caso brasileiro, que forçam a entrada em cena de atores pouco queridos da nossa mídia. Tais avanços, no entanto, ainda não foram capazes de fazer do jornalismo aquilo que o discurso dele promete incessantemente: noticiar tudo com objetividade e de acordo com o interesse do leitor.

É Norberto Nobbio quem diz que o prazer de ser otimista está reservado aos fanáticos, àqueles que desejam a catástrofe, e aos insensatos, àqueles que imaginam que no fim tudo se arranja. O pessimismo torna-se um dever político. E deve ser compreendido como uma atitude não-conformista, ativa. Que acredita, ainda, no milagre da política, da ação humana. Pessimismo, aqui, recusa uma visão cândida, tributária de um iluminismo ingênuo, de uma visão linear do progresso e assume que as alternativas postas à frente da humanidade são apenas alternativas e qualquer uma delas se afirmará ou não, a depender da atuação dos atores em luta. O jornalismo não está à margem dessas lutas e suas modificações, para melhor ou para pior, também dependem do desenvolvimento delas.

Salvador, outubro de 1995
Emiliano José

Outros textos extraídos do livro:


Apresentação de Bernardo Kucinski - "Tudo Começou com o confisco"

Instituto Gutemberg
Embate entre criador e criatura
Teoria e debate
O poder da imprensa
 
  Gustavo Falcon
O impeachment foi o ponto de partida
 
  Rodrigo Gurgel
Jornalismo complacente
 
  Emiliano José
Collor e a mídia brasileira
 
 
 
 
 
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