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Último capítulo do livro

O homem errado

Está claro que se considera simplificadora a idéia de que a imprensa, quase que por sua conta e risco, decidiu o impeachment. Mas, talvez, ainda seja necessário esclarecer por que ela, depois de um prolongado, pacífico e conivente relacionamento com Collor, decide romper com ele. E não parece haver uma única causa a explicar tal rompimento. A imprensa apóia Collor com um projeto, uma alternativa de poder que poderia levar à prática um novo modelo de acumulação capitalista, de matriz neoliberal, com o qual ela sonhava há muito tempo. Foi uma aposta política, fundada em interesses muito claros. Apóia o caçador de marajás na linha de não permitir que o bloco hegemônico de poder sofresse qualquer abalo.

Reafirmar isso é importante para desnudar a noção de um jornalismo apartidário, tão difundido e tão desrespeitado. A imprensa não pode ser colocada à margem da luta pela hegemonia na sociedade, e nessa luta ela está de um lado, e não é o das classes subalternas. Claro que a imprensa reflete a existência de todas as classes sociais, expressa as contradições existentes entre elas. Mas, de modo geral, tem uma opção, que se torna mais clara ainda nos momentos decisivos da história, como foi aquele da sucessão presidencial de 1989.

Esse engajamento da imprensa – ela, aliás, detesta a palavra engajamento – é realizado sobre os trilhos de uma linguagem muito própria que, no mais das vezes, engana aos não-iniciados. O jornalismo objetivo, com seu conjunto de normas, é a esteira na qual se desenrola a ação dos meios de comunicação. O respeito aos fatos, alicerçado em fontes confiáveis sustenta a opção deles. A ideologia da objetividade, a simulação de que todos os lados têm o mesmo espaço, permite mascarar as escolhas políticas feitas.

Não se dê como tranqüilo que foi a imprensa que elegeu Collor. Como se viu, uma sucessão de fatores se conjugaram a criaram as condições para que ele se tornasse presidente. Mas a imprensa, inegavelmente, contribuiu de modo decisivo para assegurar a vitória dele. Não apenas registrando acontecimentos, mas intervindo na conjuntura, revelando-se, na sua especificidade, um ator político de peso. Intervém como coadjuvante de um processo em curso, mas intervém.

Se a fase do apoio é relativamente fácil de ser analisada, o mesmo não pode ser dito quando tentamos esclarecer as razões pelas quais a imprensa rompe com o ex-caçador de marajás. É verdade que o Collor-espetáculo, a partir de um certo momento, talvez ao final de 1991, começa a cansar. Mas, esse cansaço da imprensa, que requer sempre o novo, não constitui uma explicação suficiente para o rompimento. Apesar de cansada do show, a imprensa poderia, ainda assim, continuar a se relacionar com ele, até com uma visão mais crítica, sem, no entanto, chegar ao rompimento.

A imprensa poderia continuar com suas críticas a Collor, nos termos em que elas se deram até maio de 1992, com altos e baixos, sem que nada de extraordinário acontecesse. E o próprio Collor poderia redefinir sua relação com ela, como o fez em mais de uma ocasião. Collor só enfrenta o rompimento dos meios de comunicação a partir da entrevista de Pedro Collor de Mello, cujas revelações, de teor altamente explosivo, e mais explosivo ainda pelo fato de partirem do irmão do presidente, não permitiriam à imprensa ficar inerte ou omissa, sob pena de a legitimidade dela sofrer danos irreparáveis.

De alguma forma, pode-se afirmar que tal rompimento foi construído ao longo dos meses do governo Collor. Construído não tanto pela imprensa – que aliás namorou Collor a maior parte do tempo – mas pelo próprio Collor, cujo desempenho político à frente do governo, escancarando a corrupção e pretendendo-se poderoso o suficiente para durante largo tempo de seu governo dar-se ao luxo até de desprezar aliados tradicionais no plano político, provocou fissuras no bloco dominante.

Se essa interpretação for correta, o desdobramento natural dela é acreditar que o momento do rompimento, ou do início dele, - a entrevista de Pedro Collor – seria apenas o desenlace de uma crise política que vinha sendo desenhada antes, da qual a própria imprensa não tinha consciência plena. Claro, que acaso Pedro Collor não desse a entrevista, nos termos em que deu, provavelmente a história seria outra. Mas, tal entrevista era a crônica de uma entrevista anunciada. Pedro Collor é o irmão trágico, que espreme o tumor, que faz a crise política já madura ganhar as dimensões que ganhou. Aqui e ali, mesmo preservando Collor, e Istoé sequer o preservava, a imprensa anteriormente já apontava os sinais dessa crise. A cantilena de que Collor havia decepcionado as elites era ouvida através da própria imprensa e essa era a forma elegante, ou dissimulada, de afirmar que ele, Collor, não conseguiu corresponder às expectativas do bloco hegemônico de poder.

Esta crise, claro, não tem qualquer conotação revolucionária. Os de baixo que, de alguma forma, vão participar de sua resolução, ainda não tinham condições de impor um caminho alternativo. E é exatamente essa dimensão da crise, passível de ser assimilada sem quaisquer modificações na estrutura e sem mexer também no poder político, ao menos se o poder for compreendido como um bloco, que provavelmente faz com que, a partir de certo momento, quem sabe quando da matéria de Eriberto França, as classes dominantes passe a admitir o descarte de Collor. Antes que sobrevenham tempestades maiores, é melhor tomar as rédeas do processo e garantir que o elemento provocador da crise, se possível, seja retirado de cena e tudo voltará a ser como antes, ou quase.

Collor, que significara a solução moderna do bloco hegemônico sintonizada com os ventos neoliberais, transmuta-se num problema. Quando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo aconselha os empresários a dispensarem seus empregados para participar de manifestações pró-impeachment tem-se uma dimensão exata de como se comportam os dominantes naquele momento. Collor deixara de corresponder aos interesses do centro dinâmico da economia brasileira, o que, para o bloco hegemônico de poder, significava que o presidente flutuava no ar e que cedo desabaria. Quando Collor acreditou poder desenvolver a política sem levar em conta a necessidade da construção de um consenso em torno dele, de costurar um leque de alianças necessário à sustentação desse consenso, fez amadurecer as condições para a crise que desemboca no impeachment, mesmo que só tardiamente os atores todos se apercebam disso.

Os componentes do bloco dominante poderiam, claro, permanecer de braços cruzados caso não irrompessem fatos como o a entrevista de Pedro Collor, a performance da imprensa, a entrevista de Eriberto, a atuação dos caras-pintadas. Poderiam não correr o risco da desestabilização. Mas, criada a situação política tensa, analisadas as possibilidades do impeachment, descartada a renúncia por decisão do próprio Collor e do bunker dirigido pelo ex-governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, os que, no mundo político e na sociedade civil se perfilavam no bloco dominante, decidem então descartar o presidente para não permitir que houvesse qualquer conturbação na ordem vigente.

Essa explicação mais geral, necessária, não consegue, no entanto, dar conta, de modo completo, das razões pelas quais a imprensa teria rompido com Collor, depois de passar tanto tempo apoiando-o de modo quase irrestrito. Claro que há, à primeira vista, um ponto de partida sólido, que é a entrevista de Pedro Collor de Mello, em maio de 1992, à revista Veja. Mas, apesar da entrevista, era possível não haver rompimento. Afinal, em várias circunstâncias, uma notícia-bomba tem seus efeitos aplacados rapidamente, a partir da iniciativa, ou da omissão deliberada da própria imprensa. O caso Ricupero, na campanha presidencial de 1994, pode ser lembrado, de passagem.

Não se pode desconhecer, evidentemente, a dinâmica jornalística. A notícia-bomba adquire tal dimensão, ganha tal ritmo, que não permite qualquer vacilação por parte da imprensa. Essa dinâmica é que faria com que os meios de comunicação não pudessem mais voltar atrás, dar o dito pelo não-dito. Essa explicação, no entanto, insista-se, ainda não parece inteiramente satisfatória. O rompimento da imprensa com Collor, a decisão de romper deve ser explicada também a partir das relações entre ela e os setores insatisfeitos do bloco hegemônico de poder.

Se Collor evidencia incapacidade política para construir um consenso capaz de levar adiante aquele programa entusiasticamente apoiado pela imprensa e se a esta é oferecida de bandeja a possibilidade de contribuir para tira-lo do poder, por que não fazê-lo? A revista Veja, que foi a mais eufórica defensora de Collor, ao lado das Organizações Globo, transforma-se na mais ferina inimiga do ex-presidente, de modo aparentemente inexplicável. Na verdade, além de ser compelida a caminhar na direção do rompimento devido à entrevista de Pedro Collor, ela reflete, com ênfase, a insatisfação já existente em vários setores do bloco de poder, assumindo de alguma forma a vanguarda deles, transformando-se numa espécie de “partido da rebelião dentro da ordem a favor da ordem”.

A imprensa, como integrante do bloco hegemônico de poder – senão por que defender com tal ênfase o programa neoliberal? – ao refletir as insatisfações existentes entre os dominantes e, claro, também entre os dominados, de alguma forma substitui os partidos brasileiros, reconhecidamente frágeis, colocando-se como porta-voz da população, mesmo que formalmente nenhuma delegação lhe tenha sido dada par tanto. Antes mesmo que parcelas dominantes das áreas política e econômica o percebam, a imprensa se dá conta de que Collor pode não só deixar de consolidar um consenso hegemônico estabelecido há tanto tempo, como, também, abrir as portas para um período conturbado, incerto, no país.

Não foi um rompimento assim como um raio caído num dia de céu azul. Devagar, a imprensa foi tecendo o fio que a levaria a tal gesto e nessa fase o papel de IstoÉ assume relevância. E o momento propício apareceu com a entrevista de Pedro Collor. Nem pensar na idéia de que, pelo fato de vir sendo tecido, tal rompimento aconteceria inevitavelmente. Há sempre a imprevisibilidade, o “milagre” da ação humana, mas “milagre” inscrito num quadro de possibilidades reais. Ao romper com Collor, espremer o tumor, a imprensa contribui de alguma maneira para oxigenar a vida política do país, mas também para a construção ou a reconstrução, de um consenso baseado nas velhas fórmulas e quase que nos mesmos atores. O acordo político resultante do processo de impeachment satisfez às classe dominantes internas e às forças hegemônicas do capitalismo internacional.

Uma operação dessa envergadura não poderia ser realizada de maneira tão espontânea. A imprensa não participou dela de forma tão exclusivamente profissional, como ás vezes se pretende fazer crer. Sabia o jogo político que estava jogando, mesmo que não dominasse todas as suas conseqüências. Tirar Collor, a partir de certo momento, tornou-se imperioso para restabelecer a ordem e a calma sob um velho, mas renovado, consenso – disso ela tinha consciência. E a ordem e a calma combinavam com a continuidade da mesma política de Collor, que era apenas o homem errado.

Textos "on line" extraídos do livro:


Apresentação de Bernardo Kucinski - "Tudo Começou com o confisco"

Instituto Gutemberg
Embate entre criador e criatura
Teoria e debate
O poder da imprensa
 
  Gustavo Falcon
O impeachment foi o ponto de partida
 
  Rodrigo Gurgel
Jornalismo complacente
 
  Emiliano José
Collor e a mídia brasileira
 
 
 
 
 
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