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O poder da imprensa
MYRIAN LUIZ ALVES*
Imprensa e Poder: ligações perigosas, de Emiliano
José. Editora da Universidade Federal da Bahia e
Hucitec, 282 páginas, 1996
"Quem
pode, pode; quem não pode desaparece" - disse o presidente
Fernando Henrique Cardoso, três dias após ganhar na Câmara dos
Deputados o direito a uma nova candidatura em 1998. A
declaração, veiculada nos telejornais, tinha endereço certo:
os segmentos sociais brasileiros, entre eles os detentores dos
meios de comunicação, poderiam, pelo menos por um bom tempo,
respirar aliviados, já que, após mais de uma década de
tentativas, o projeto neoliberal conseguira um porto seguro em
suas mãos.
Esses
segmentos abraçaram anteriormente o mesmo projeto oferecido
por um outro Fernando, o Collor, mas este mostrou-se trapalhão
demais, ou ganancioso de maneira exagerada para os padrões
normais de qualquer governo.
Poucos anos depois, no entanto, os principais veículos
de comunicação não se intimidaram e mostraram novamente sua
preferência por um dos candidatos. Desta vez, o escolhido era
FHC, um respeitável sociólogo, então ministro da Fazenda.
Portador de um plano de estabilização econômica, esse
candidato faria a vez do ex-caçador de marajás.
Tudo
isso é óbvio para quem acompanha a evolução neoliberal, mas
não é tão evidente assim para quem não acompanha atentamente
essas chatices que acabam por atingir a maioria: os
noticiários televisivos e os programas dominicais. Por
exemplo, no dia 2 de fevereiro, o texto do programa Semana
do Presidente, veiculado durante as tardes do Domingo
Legal, chamou FHC três vezes de querido presidente, e após
noticiar que ele havia conseguido uma vitória há tanto
almejada, encerrou angelicamente dizendo "Feliz a Nação cujo
Deus é o Senhor".
Assim, definitivamente, não dá. Haja coração e
perplexidade para segurar tamanha cara-de-pau. Por conta
disso, alguns jornalistas resolvem, então, tentar entender e
explicar para outros da profissão, para os agentes da notícia
e para aqueles que pensam em galgar as escadarias da imprensa
nacional, como se dá essa relação entre imprensa e poder. Foi
essa a tarefa à qual se dedicou Emiliano José, autor, entre
outros livros, de Lamarca, o Capitão da
Guerrilha.
Para
explicar como agem os veículos de comunicação, seja por meio
de seus editoriais - nos quais a grande maioria realmente diz
o que pensa e quer - ou por meio de suas reportagens, Emiliano
analisou em Imprensa e Poder: ligações perigosas o
comportamento de jornais e, principalmente, das revistas
de maior circulação no país, Veja e IstoÉ desde
o período que antecedeu as eleições de 1989, dando ênfase aos
fatores que provocaram a instalação de duas comissões
parlamentares de inquérito: a de PC Farias e a do
orçamento.
O
livro originou-se há dois anos de uma dissertação de mestrado
na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia;
depois, o autor, partiu para o doutorado em Comunicação e
Cultura Contemporâneas. Militante da Ação Popular, Emiliano
José participou do movimento estudantil nos anos 60 e somente
em 1974 voltou-se ao jornalismo. Ter sido deputado estadual
(1988/1990) facilitou ainda mais a objetividade da análise que
mostra a confusão ideológica que alguns setores da imprensa
gostam de deixar transparecer para parecerem democráticos - e
quase sempre conseguem seu intento.
Ainda
em sua apresentação, Emiliano lembra que, apesar de o
jornalista ter um mandato da sociedade para bem informar, a
mesma sociedade transforma a informação em mercadoria,
tornando assim o espaço jornalístico em contradição. Assim, é
balela imaginar que há uma conspiração dos donos de jornais
pela complacência do jornalismo perante o poder. Ao ler a obra
e, principalmente, as entrevistas com jornalistas que cobriram
o período compreendido entre 1989-1992, chega-se à impressão
de que é preciso partir de vários pontos de vista para
concluir que, no caso brasileiro, como alerta Emiliano, há um
código de comunicação envolvendo patrões e empregados e, com
certeza, o nosso jornalismo é típico de sociedades
subdesenvolvidas.
Emiliano mostra, por exemplo, a desconfiança de
IstoÉ sobre Collor desde sua campanha eleitoral, mas
por quê? O candidato preferencial do dono da revista era
Orestes Quércia, e esse estava fora do páreo. Os jornalistas
dessa revista tiveram, então, a oportunidade de trabalhar com
mais liberdade. Mostra que Veja colocou-se
declaradamente a favor de Collor e trabalhou intensamente
desde sua gestão no governo de Alagoas para que ele viesse a
ser presidente. Relata, por meio de entrevistas com grandes
nomes do jornalismo brasileiro e estudiosos da área de
comunicação, os motivos que levaram Pedro Collor a escolher a
Veja para sua denúncia contra o próprio irmão;
paralelamente, não deixa de destacar os profissionais que,
mesmo com a falta de liberdade de imprensa, exercem com
competência seu trabalho. Destaca a comodidade jornalística
proporcionada por fontes seguras versus jornalismo
investigativo; os limites da ética e a faceta dos meios de
comunicação que se autoproclamam responsáveis diretos pela
ação parlamentar. Ele lembra a autocrítica da imprensa -
revelada pouco antes da queda de Collor - pelo exagero com que
cobriu todas as etapas heróicas do ex-presidente; autocrítica
que deixa claro, porém, que Lula, jamais...
O
erro era anterior, não haviam procurado com mais afinco, junto
com outros setores das classes dominantes, um candidato mais
confiável. Após a queda, os meios de comunicação deixam claro
que Itamar Franco deveria prosseguir no projeto de
modernização, via privatizações, diminuição do Estado e tudo o
mais que, agora, FHC aplica com um intelecto um pouco mais
privilegiado. Daí, percebe-se o porquê da necessidade de os
veículos desejarem mais quatro, ou, quem sabe, mais oito anos
para FHC. É um sujeito confiável e, oriundo das lutas
democráticas, pode, em vez de mandar uma banana com aquele
gesto famoso de Collor aos seus adversários, responder aos
seus opositores, aparentando uma arrogância imperial, que tudo
o que fará daqui para a frente será mesmo com o objetivo de
reeleger-se. FHC terá - ele tem absoluta certeza disso - o
apoio e a companhia de repórteres eufóricos em cumprir o que
tem sido há anos o desejo de seus patrões.
Depois disso, resta ao leitor um pouco mais criterioso
apenas os textos bem escritos de alguns articulistas que têm a
saudável tarefa de garantir imparcialidade aos seus
veículos, tornando-os democráticos perante seu público.
Mas que não deixam de ser, porém, um alento aos que acompanham
assiduamente o noticiário político. Ler o trabalho de Emiliano
José é cumprir objetivamente a recomendação: é conhecendo o
passado que se entende o presente para, conseqüentemente,
preparar o futuro. O passado nunca foi tão presente assim,
pelo menos no que se refere ao jornalismo nacional, em
especial, à reportagem. Se ele realmente havia aprendido
alguma coisa de útil com o vexame Collor/PC, fez questão de
esquecer e quer passar a impressão de que outros setores
também esqueceram. Talvez, daqui a alguns meses, se prevalecer
o desejo do mais respeitável profissional da imprensa, Barbosa
Lima Sobrinho, e dependendo do andar da carruagem (ou seja, da
pressão popular, como no caso pró impeachment), o
jornalismo veja-se obrigado a cobrar uma CPI para investigar
os motivos que levaram tantos deputados a mudar seu voto
durante a aprovação da reeleição. E, como em outros relatos já
conhecidos sobre a imprensa nacional - Razão de
Viver (Samuel Wainer), Regra do Jogo (Cláudio
Abramo), Chatô (Fernando Morais), e tantos outros - Emiliano
José tenta mostrar como funciona a relação que Roberto Cardoso
Alves explicou com tanta competência: "é dando que se recebe".
Quantas novas concessões de rádio e TV foram entregues por
Sérgio Motta na semana de votação da reeleição? Pode ser que
esse capítulo já esteja sendo escrito para se somar à história
da relação imprensa-poder, ou ainda, sobre o poder da imprensa
nacional.
*Myrian Luiz Alves é
jornalista. |