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Ana Montenegro indicada ao Nobel da Paz

O Jornal A Tarde, em reportagem sobre Ana Montenegro, indicada ao Nobel da Paz, lembra que Emiliano José, no livro Galeria F, traça o perfil da mulher feita de aço e poesia

Ana Montenegro, 90 anos e seis décadas de militância política, primeira mulher brasileira exilada logo após o golpe militar de 1964, está sendo entre as quatro baianas indicadas para o Nobel da Paz 2005. Reportagem de A Tarde (13/07/05) traça seu perfil e lembra que o deputado e escritor Emiliano José (PT), em seu livro Galeria F: Lembranças do Mar Cinzento afirma que ela é daquela espécie de mulheres e homens formados no PCB e que pareciam feitos de aço, pela firmeza de suas convicções e solidez de sua formação. Mas o aço de que Ana Montenegro foi se forjando veio amalgamado pela poesia, ressalta ele.

Além de Ana Montenegro, outros 52 nomes de mulheres brasileiras fazem parte da lista de indicadas ao Nobel da Paz. A Bahia está representada também por figuras emblemáticas, como mãe Hilda, líder espiritual do bloco afro Ilê Ayê, mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e Creuza Oliveira, presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas. Elas fazem parte das mil mulheres de 153 países indicadas através do Projeto 1.000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz, lançado em março de 2004. Uma iniciativa que busca reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres na promoção da paz. Desde 1901, quando foi criado, o Nobel da Paz premiou apenas 12 personalidades femininas.

Leia a matéria de A Tarde
13/07/2005
Ex-exilada política concorre ao Nobel da Paz
 
Abmael Silva
    
Eder Luis Santana e Vítor Rocha,
do A Tarde On Line

Ana Montenegro foi a primeira mulher exilada quando os militares assumiram o comando do País. Quarenta e um ano depois é lembrada e indicada ao Prêmio Nobel da Paz 2005, junto com mais 999 mulheres, sendo três delas baianas. Militante comunista desde 1944, ativista do movimento das mulheres, amante das letras, jornalista e advogada, Ana já participou de diversos movimentos sociais, mas carrega hoje o peso dos 90 anos de vida.

Durante as seis décadas de militância, Ana Lima Carmo, seu nome verdadeiro, conheceu personalidades políticas importantes da esquerda mundial, como Fidel Castro, Che Guevara e Amílcar Cabral, dirigente do Partido da Independência de Guiné e Cabo Verde assassinado a mando de portugueses colonialistas. O sobrenome Montenegro surge da assinatura que usa nos trabalhos jornalísticos que realiza principalmente em meios de comunicações ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Sua presença transmite a firmeza de quem lutou contra a ditadura e, ao mesmo tempo, a fragilidade própria da idade avançada. O tempo lhe causou problemas auditivos e de memória. Quando questionada sobre as lembranças da época do exílio, se limita a responder: “lembro dos amigos. Fiz grandes amigos”.

“Apesar da idade avançada, Ana Montenegro manteve seu ideal comunista, prova de que sua posição não era de fachada”, assegura Gustavo Falcon, professor de sociologia da Universidade Federal da Bahia, que tem diversas horas gravadas com depoimento dela. “A luta de anos e anos não a amargou. Ela continuou de bem com a vida”.

A grande influência e amizade de Ana Montenegro foi o líder comunista Carlos Marighella. Foi ele quem indicou o exílio dela quando os militares assumiram o comando em 1964. Para assegurar sua integridade física, parte do Brasil para o México. Depois passou por Cuba, onde conheceu os principais líderes da revolução socialista. Da ilha de Fidel, partiu para a Europa e se instalou na Alemanha Oriental (comunista), onde passou a maior parte dos 15 anos de exílio.

RETORNO - De 1964 a 1979 fez parte da Comissão da América Latina pela Federação Democrática Internacional das Mulheres. Com a anistia brasileira em 1979, Ana retorna ao Brasil e se instala em Salvador, onde vive até hoje, em Stella Mares. Integra a direção do “Partidão”, como era conhecido o PCB, e luta pelos direitos humanos e da mulher. Mesmo com o abalo do socialismo real e o fim da antiga União Soviética, Ana não se abalou e manteve seus conceitos.

“Ela continuou socialista. É daquelas espécies de mulheres e homens formados pelo PCB que pareciam feitos de aço pela firmeza de suas convicções, solidez de sua formação. Mas o aço de que Ana foi se constituindo veio amalgamado pela poesia”, escreve Emiliano José, em seu livro Galeria F: Lembranças do mar cinzento, parte dois, no qual dedica um capítulo à personalidade.

A sobrinha e fotógrafa Lúcia Correia Lima, acredita que a maior prova da crença de Ana Montenegro na viabilidade em um mundo mais igualitário e humanista, foi a renúncia diante dos familiares. A última atividade de Ana foi na Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Bahia, onde atuou até final de 2002 na área de direitos humanos.

“Em sua despedida da OAB, conclamou aos familiares
para continuar sua história de vida ligada aos princípios socialistas. Mas nos dias atuais de apelo ao consumismo, ficou difícil assumir as causas coletivas”, disse Lúcia, lembrando um momento em que sua tia a emocionou.

JORNALISTA - Ela Conheceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos tempos em que era apenas um metalúrgico. Apesar de inativa, fica antenada nos noticiários e acompanha cada denúncia contra o governo. “Lula é uma pessoa simples e não pode mudar o Brasil. Mesmo assim, é um rapaz trabalhador. Não acredito que esteja ligado à corrupção”, diz.

Na estante de livros montada em sua casa, podem ser encontradas as poesias de Pablo Neruda até A luta de classes na União Soviética, de Charles Bettelhein. Apaixonada pelas letras, não deixa de se debruçar sobre os livros e fazer anotações ao longo das páginas. Os rabiscos são compreendidos somente por ela. Entre os anos de 1944 e 1947, pôde atuar diretamente com as palavras, quando trabalhou nos periódicos O Momento e Seiva, ambos editados em Salvador.

Teve participação na criação do jornal Momento Feminino, editado em 1947 pelo movimento de mulheres comunistas e colaborou com jornais cariocas, como Correio da Manhã e Imprensa Popular.

PRÊMIO - Além de Ana Montenegro, outros 52 nomes femininos brasileiros fazem parte da lista de indicadas ao Nobel da Paz. A Bahia será representada também por figuras emblemáticas, como mãe Hilda, líder espiritual do bloco afro Ilê Ayê, mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e Creuza Oliveira, presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas.

Elas fazem parte das mil mulheres de 153 países indicadas através do Projeto 1.000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz, lançado em março de 2004. Uma iniciativa que busca reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres na promoção da paz. Desde 1901, quando foi criado, o Nobel da Paz premiou apenas 12 personalidades femininas.

“Diante do que tenho escrito acho que mereço ganhar, mas depende de quem é que vai escolher”, comenta Ana, quando questionada sobre sua indicação.

Leia também no site:
Quatro baianas indicadas ao Nobel da Paz


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